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Desigualdade não é lei natural, afirma Françoise Vergès.

Desigualdade não é lei natural; é construção ideológica que sustenta o capitalismo racial via trabalho invisível e práticas de limpeza e gentrificação

Françoise Vergès — Foto: Divulgação/Bayar Tayachi
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  • Françoise Vergès lança o livro Limpar o Mundo e, em entrevista à Marie Claire, analisa como o capitalismo depende do trabalho invisível e de corpos descartáveis para manter as sociedades ocidentais limpas e estáveis.
  • Ela sustenta que a desigualdade não é lei natural, mas construção ideológica, naturalizada pela divisão entre limpo e sujo e pelo higienismo do século XIX.
  • O texto aponta o papel do trabalho invisível — limpar, cozinhar, cuidar — como base da vida de mulheres brancas burguesas, com trabalhadores que sustentam esse privilégio, muitas vezes explorados.
  • A linguagem é usada para legitimar a gentrificação e a ideia de bairros “higienizados” e removidos; museus ocidentais também aparecem como espaços imunes à crítica, vinculados a pilhagens coloniais.
  • A matéria aborda a reação conservadora aos debates sobre colonialismo e reparação histórica, além da ascensão do movimento red pill, visto pela pesquisadora como retrocesso ligado a uma masculinidade tóxica.

Em seu novo livro Limpar o Mundo, Françoise Vergès analisa por que a desigualdade é naturalizada nas sociedades ocidentais e como o trabalho invisível sustenta o capitalismo racial, segundo a entrevista à Marie Claire. A pesquisadora francesa aponta que o que não vemos é parte essencial da organização social.

A autora defende que o capitalismo não gera apenas resíduos materiais, mas também populações descartáveis. A produção de corpos e territórios considerados inúteis é parte do funcionamento do sistema, diz Vergès, que liga limpeza, higiene e hierarquias ao projeto colonial.

Ela discute a relação entre branquitude, pureza e ordem, mostrando como essas noções persistem na vida doméstica, na organização das cidades, na cultura e na linguagem. O argumento central é que nada é tão limpo quanto parece.

A filósofa questiona por que a desigualdade é tratada como prioridade e aponta que a divisão entre limpo e sujo vem junto da desumanização de pessoas. Segundo Vergès, o discurso higienista teve papel fundamental no século 19.

Brasil: 6 milhões de trabalhadoras domésticas, majoritariamente negras, ilustram a herança colonial e escravocrata. Vergès afirma que esse trabalho é exploratório e muitas vezes envolve afastamento de filhos para cuidar de terceiros.

Nessa lógica, o afeto pode ocultar relações de exploração. A trabalhadora é retratada como generosa pela empregadora, mas a relação permanece desigual. Caridade é vista como forma de ocultar dignidade comprometida.

A linguagem também funciona para legitimar a gentrificação. Expressões sobre bairros “higienizados” e populações “removidas” ajudam a naturalizar a desigualdade e a segregação espacial.

Segundo a entrevista, museus europeus representam o passado colonial de modo estéril. Objetos saqueados ficam expostos como se fossem objetos mortos, sem afeto, reforçando uma visão de mundo que despreza o impacto humano da colonização.

A pesquisadora aponta que reconhecer violências históricas implica aceitar reparações e mudanças. A recusa a reconhecer os crimes do passado sustenta narrativas de civilização e progresso que precisam ser desconstruídas.

Vergès também aborda a reação conservadora a debates sobre colonialismo e direitos das mulheres. O receio de perder privilégios gera resistência a avanços femininos e a políticas de reparação.

O movimento red pill é visto como retrocesso, ampliando a hostilidade contra mulheres que reivindicam direitos. A pesquisadora descreve um ciclo de masculinidade tóxica que impede o diálogo e reforça discriminações.

Ela associa essa resistência a uma visão de masculinidade que valoriza poder, dinheiro e domínio sobre os outros, desconsiderando estudos, arte e lazer. A crítica aponta que esse modelo não traz satisfação nem vínculos duradouros.

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