- O texto aponta que, no Brasil, melhorar de vida muitas vezes significa escapar dos serviços públicos, revelando baixa confiança no Estado e nas políticas públicas.
- Dados citados: OCDE (2022) afirma que 26% dos brasileiros têm confiança alta ou moderada no governo federal; cerca de sete em cada dez acreditam que instituições públicas não funcionam no interesse da sociedade.
- Há uma distinção entre desconfiança moral (corrupção) e operacional (capacidade de entrega); a desconfiança operacional é mais difícil de reverter e exige décadas de entrega consistente.
- Em 2024, o setor de saúde suplementar superou 52 milhões de beneficiários, e há migração para transporte individual e educação privada, sinalizando defesa de soluções privadas.
- Emendas parlamentares passaram de menos de quatro por cento das despesas em 2014 para cerca de vinte a cerca de vinte e nove por cento entre 2020 e 2024, aumentando a fragmentação e reduzindo a coordenação entre os níveis de governo.
A desconfiança generalizada entra no cotidiano brasileiro e molda escolhas individuais. Dados da OCDE, em 2022, mostram apenas 26% dos brasileiros com confiança alta ou moderada no governo federal. Quase 70% acreditam que as instituições públicas não atuam no interesse da sociedade. A percepção se repete entre partidos e serviço público.
Pesquisas internacionais corroboram o quadro. A Ipsos, em 30 países, aponta menos de 15% dos brasileiros confiando que a maioria das pessoas pode ser confiada, um dos menores índices. O Latinobarômetro registra padrão similar ao longo de décadas. O problema não é apenas corrupção, mas funcionamento do Estado.
Essa desconfiança tem duas faces distintas. A moral aponta para desvio de agentes públicos; a operacional questiona a capacidade de o Estado entregar políticas eficazes. A segunda é mais resistente a soluções rápidas, exigindo entregas contínuas ao longo de décadas.
Confiança institucional e governança
A OCDE indica ainda que apenas um terço acredita que o governo alteraria políticas públicas sob pressão popular, e menos de um terço acha que opiniões coletadas são incorporadas. A participação pública é vista como improvável de gerar mudanças significativas, e não como uma promessa de honestidade.
Essa diferença transforma governança em questão de expectativa. Sociedades com baixa confiança na eficácia tendem a abrir espaço para lideranças que prometem mudanças rápidas, dificultando projetos coletivos de longo prazo.
Impactos sobre políticas públicas e orçamento
O ambiente de baixa confiança influencia o funcionamento do sistema político. Em anos recentes, ocorreu fortalecimento do Congresso e descentralização do orçamento, elevando a fatia de recursos alocados por emendas parlamentares. Variações de 4% para quase 29% das despesas discricionárias entre 2014 e 2020, mantidas em cerca de 20% em 2024, conforme dados do FGV-IBRE.
Essa tendência faz com que o orçamento nacional vire soma de planos locais, com cada parlamentar atuando como unidade autônoma de alocação de recursos. A coordenação entre Executivo e Legislativo fica comprometida, dificultando políticas nacionais.
O resultado é uma tendência de fragmentação: menos capacidade de coordenação, mais atritos administrativos e maior custo de implementação de políticas. Em cenários de baixa confiança, desvios menores ganham rationalidade prática, como caminhos para contornar filas ou acelerar processos.
Impactos sociais aparecem na prática. O setor de saúde suplementar encerrou 2024 com mais de 52 milhões de beneficiários, acompanhando a migração para transporte privado e educação privada, como respostas de defesa individual diante da incerteza sobre o funcionamento do Estado.
A ausência de confiança também molda a participação cívica. Em vez de exigir melhorias públicas universais, a cidadania passa a significar evitar a dependência de serviços públicos. Em termos políticos, a coordenação para projetos coletivos tende a encolher, dificultando avanços estruturais.
Lucas de Aragão, mestre em ciência política e sócio da Arko Advice, assina o texto.
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