- A cidade de Weimar foi berço de liberdades democráticas em 1919, quando a primeira constituição da Alemanha foi promulgada, e abrigou a Escola de Bauhaus (1925-1925), que colocou a cidade à frente de arte e design.
- Entre 1920 e 1930, Weimar tornou-se chave no surgimento do Nazismo, com 1926 marcando o primeiro congresso nazista desde a reabertura, que incluiu a criação da Juventude Hitlerista.
- No domingo daquele ano, Adolf Hitler realizou o ritual do “ Blood Flag” no auditório onde a constituição foi criada, consolidando uma estratégia de extremismo na cidade.
- Até 1929, o apoio nazista cresceu; nas eleições de dezembro, 24% dos thuringianos votaram neles, e o partido passou a governar o estado em coalizão, tornando Weimar um laboratório de governo nazista até 1931.
- Em 1937, foi inaugurado o campo de concentração de Buchenwald, a poucos quilômetros da cidade, onde cerca de 56 mil prisioneiros, principalmente judeus, perderam a vida; a cidade manteve relações ambíguas com o regime, conforme retratado no livro Life on the Edge of Catastrophe, da historiadora Katja Hoyer.
Weimar, cidade de 65 mil habitantes na Turíngia, figura como marco decisivo da história alemã: berço de uma democracia nascente e palco de avanços culturais, mas também de viradas sombrias que ajudaram a sedimentar o nazismo. A obra de Katja Hoyer analisa, entre 1919 e 1939, como o município refletiu o choque entre liberalismo e autoritarismo.
A pesquisadora destaca que a Constituição de Weimar foi promulgada no teatro da cidade, em 1919, quando o país tentava superar a Primeira Guerra Mundial. De 1919 a 1925, Weimar sediou a escola Bauhaus, sob liderança de Walter Gropius, colocando a cidade na vanguarda da arte e do design.
Em 1926, o fim de semana de 3 a 4 de julho reuniu 7 mil a 8 mil participantes de um congresso nazista, marcando a consolidação de símbolos e estruturas do movimento, incluindo a juventude hitlerista. O ritual do “Blood Flag” ocorreu naquele domingo, em meio ao mesmo auditório onde se redigira a constituição.
Transformação política e violência
O clima de tensão permaneceu. Entre agressões físicas, vandalismo e embates com a polícia, o partido nazista ganhou espaço regional, chegando a 24% dos votos em Weimar nas eleições regionais de 1929, e entrando, pela primeira vez, no governo estadual em coalizão com outras forças de direita.
Em 1937, a proximidade com o campo de concentração de Buchenwald, cinco quilômetros da cidade, tornou Weimar símbolo de como o regime conectou governo local, economia e infraestruturas. Registros indicam uso de serviços municipais e até do crematório até 1940 para sustentar o funcionamento do campo, que vitimou cerca de 56 mil presos, majoritariamente judeus.
A vida econômica da região também se entrelaçou com o aparato nazista. Empresas locais forneciam suprimentos para o campo, enquanto a população convivia com das suas estruturas, incluindo um zoo para guardas. Curiosamente, o portão do campo trazia a inscrição Jedem Das Seine, numa tipografia associada ao Bauhaus, criada por um preso.
A leitura de Hoyer e o alerta para o presente
Hoyer não celebra o regime, mas analisa as dúvidas morais diante de decisões individuais tomadas no passado. Em trechos citados pela autora, um lojista de papelaria de Weimar, que apoiou o NS, mostra como escolhas locais moldaram a trajetória instalada pelo regime.
O livro também aponta o desafio de não julgar pessoas de um século atrás apenas por seus atos. Ainda assim, argumenta que compreender essas complexidades é essencial para preservar a democracia hoje, especialmente diante de recortes de apoio a ideologias extremistas.
Weimar: Life on the Edge of Catastrophe, de Katja Hoyer, é publicado pela Allen Lane e já está disponível no circuito de livrarias. A obra investiga a complexidade de uma cidade que viveu, ao longo de duas décadas, o embate entre democracia, cultura e autoritarismo.
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