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Coreografia da Escolha mapeia décadas de disputa política sobre o aborto no Brasil

Livro-reportagem aponta que o Caso das 10 mil foi ponto de virada na disputa pelo aborto no Brasil, evidenciando a distância entre prática clandestina e discurso público

As jornalistas Angela Boldrini e Carolina Moraes, autoras de 'Coreografia da Escolha: A Disputa pelo Aborto no Brasil'; livro-reportagem será lançado em junho pela editora Fósforo
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  • Em 2007, uma reportagem na TV Morena revelou a atuação de uma clínica de aborto clandestina em Campo Grande, operada pela médica Neide Mota Machado, levando à apreensão de fichas de 9.896 pacientes e ao Caso das 10 Mil.
  • O livro-reportagem Coreografia da Escolha, de Angela Boldrini e Carolina Moraes, aponta esse episódio como marco na organização de forças políticas em torno do aborto no Brasil.
  • As autoras defendem que o episódio consolidou a dissociação entre prática privada clandestina e discurso público dominante sobre o tema.
  • O testo traça a repetição de estratégias entre campos progressistas e conservadores, com influências internacionais, principalmente dos Estados Unidos e da Igreja Católica.
  • Um exemplo recente analisado é o PL 1904/24, conhecido como Antiaborto por Estupro, cuja mobilização mostrou mudanças de discurso e a importância de comunicar o que ocorre no movimento feminista.

Em 2007, uma reportagem da TV Morena revelou uma clínica de planejamento familiar em Campo Grande que, na prática, atuava há quase duas décadas com serviços de ginecologia, DIU e abortos. A divulgação levou a uma operação policial e à apreensão de fichas de 9.896 pacientes, atrelando o caso ao maior processo penal por aborto já registrado no Brasil.

O episódio ficou conhecido como Caso das 10 Mil e é apresentado no livro-reportagem Coreografia da Escolha, de Angela Boldrini e Carolina Moraes, pela editora Fósforo. As autoras afirmam que o caso mudou a organização de forças políticas em torno do aborto no país.

O livro aponta que o episódio cristalizou uma dissociação entre prática privada, muitas vezes clandestina, e discurso público dominante. Ao longo de três anos, as autoras ouviram políticos, médicos, ativistas e mulheres que passaram pela experiência, com pesquisa de campo e participação discreta em atividades antiaborto.

A obra utiliza a ideia de coreografia para descrever a disputa, segundo as autoras, repetida entre progressistas e conservadores. A socióloga Jacqueline Pitanguy é citada como quem sugeriu a metáfora da dança que envolve os mesmos atores.

A narrativa destaca ainda a importação de retóricas antiaborto dos Estados Unidos para o Brasil desde a década de 1980, com a presença do padre Paul Marx e da organização Human Life International, que trouxeram conceitos como o conceito de “personalidade fetal” e a ideia de vida desde a concepção.

Boldrini ressalta que o discurso antiaborto tende a ser homogêneo por ter base em instituições como a Igreja Católica e movimentos ultraconservadores estrangeiros. A autora também observa que, no Brasil, o debate por saúde pública é central para relacionar o tema às desigualdades de acesso.

Segundo o livro, a luta pela descriminalização seguiu vias distintas em cada país. Enquanto o movimento feminista brasileiro enfatizou o enquadramento como questão de saúde pública, a decisão histórica nos Estados Unidos, de 1973, reconheceu o direito ao aborto, até 2022 quando houve mudança na reversão desse entendimento em alguns estados.

No Brasil, o problema principal é o estigma: o aborto é visto como questão privada, não atribuída a um direito público. Boldrini aponta que muitas mulheres não se declaram a favor do aborto, mesmo assim recorrem ao procedimento.

A obra também destaca o rigor jurídico aplicado a quem aborta no país, com penas que podem superar as previstas para tráfico de drogas. O livro mostra que a repressão contrasta com a continuidade de práticas, clandestinas ou não, em diferentes contextos regionais.

Exemplos recentes, como o PL 1904/24, mostram que nem toda mobilização ocorre segundo o roteiro. A reação ao projeto antiaborto por estupro estimulou o movimento feminista a aprimorar a comunicação e a percepção pública sobre o tema, segundo Moraes.

Para as autoras, o jogo político em torno do aborto está sempre em movimento, com novos discursos surgindo e novas coalizões se formando diante de cada derrota ou vitória. A obra, portanto, procura mapear as dinâmicas que moldaram a disputa ao longo das décadas.

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