- O publisher do The New York Times, A. G. Sulzberger, alertou no Congresso Mundial de Mídia da WAN-IFRA que empresas de IA violam leis consolidadas e pediu defesa dos direitos jornalísticos para um futuro sustentável do jornalismo.
- Ele destacou riscos à esfera pública e à qualidade da informação, citando uso não autorizado de conteúdo de noticias para treinar IA e a possibilidade de reduzir o jornalismo de investigação e reportagem original.
- O NYT processou OpenAI, Microsoft e Perplexity por violações de direitos autorais; o grupo afirma que o valor de dados e conteúdo jornalístico é essencial para treinar modelos confiáveis.
- O setor já vinha em fragilidade antes da IA, com quedas de tráfego e receita publicitária; licenciamento de conteúdo e micropagamentos são vistos como caminhos, mas incertos para compensar perdas.
- O discurso propõe defesas em quatro frentes: proteger direitos de propriedade intelectual, negociar com cautela, pressionar legisladores e unir forças com outras indústrias criativas, além de usar a IA de modo responsável para fortalecer o jornalismo original.
O publisher do The New York Times, A.G. Sulzberger, alertou no Congresso Mundial de Mídia da WAN-IFRA sobre violações de leis consolidadas por empresas de IA. Em seu discurso, ele pediu defesa dos direitos de imprensa para assegurar um futuro sustentável do jornalismo.
Segundo Sulzberger, a IA gerativa acena como a próxima revolução tecnológica, mas traz riscos. Em poucos anos, o ChatGPT já somou centenas de milhões de usuários. Hoje, o mercado reúne IA de várias grandes empresas, que atuam além da OpenAI, envolvendo Google, Meta, Microsoft, Anthropic e X.
O executivo destacou dúvidas sobre produtividade, empregos, avanços médicos e controles sobre os modelos. Perguntou como a IA vai impactar o jornalismo, o ecossistema informativo e a saúde das democracias, ao mesmo tempo em que os profissionais procuram saber como agir.
Os primeiros sinais geram preocupação. Sulzberger afirma que as grandes IA controlam dados e atenção pública, sem assumir responsabilidade pela confiabilidade das informações. O uso inadequado de conteúdo protegido por direitos autorais é apontado como prática recorrente no treinamento de modelos.
Essa apropriação de conteúdo compromete a reportagem original, um trabalho caro e essencial para investigar, contextualizar e fiscalizar poder público e agentes privados. A consequência prevista é a redução de jornalistas dedicados à apuração e ao jornalismo de qualidade.
O debate vai além do jornalismo. Segundo o texto, as indústrias criativas – livros, filmes, música e pesquisas – também sofrem com o que seria visto como roubo de propriedade intelectual. Nos EUA, o setor criativo representa uma parcela significativa da economia e do emprego global.
O grupo que reúne editores de mais de 60 países afirma que a IA já pesa sobre a receita e a circulação de notícias. A queda de tráfego para veículos tradicionais é citada como efeito direto, com impactos na publicidade e na assinatura, fontes que sustentam as redações.
Em paralelo, cresce o interesse de IA em usar conteúdos de alta qualidade de veículos jornalísticos. Dados mostram que parte relevante dos dados de treinamento de modelos vem de grandes veículos. As empresas de IA defendem o uso de dados sob licenciamento, mas reconhecem dificuldades de compensação.
No caso concreto do Times, o jornal descreve sua própria experiência. Em 2025, produziu centenas de milhares de obras jornalísticas, com custos superiores a 2 bilhões de dólares, contando com jornalistas em muitos países. O Times aponta que é uma das fontes mais utilizadas para treinar modelos de IA.
A publicação relata ainda que o Times foi líder entre fontes de dados proprietários para conjuntos de treino, seguido por outros veículos como o Guardian e o Los Angeles Times. Empresas de IA afirmam que conteúdo premium melhora as respostas, o que alimenta o debate sobre remuneração.
Questionamentos legais e judiciais são mencionados. O Times ingressou com ações contra a OpenAI, a Microsoft e outras empresas, por violação de direitos autorais no treinamento e uso continuado de conteúdo. Processos costumam ser demorados e custos elevados acendem o debate sobre viabilidade.
O cenário do jornalismo já enfrentava fragilidades antes da IA. O texto cita queda de 75% no efetivo de jornalistas nos EUA e o fechamento de milhares de jornais nas últimas duas décadas. Em várias regiões, não há repórteres cobrindo eventos locais ou questões públicas.
A IA é apresentada como candidata a aprofundar esse desequilíbrio. Se os mecanismos de IA substituírem parte do jornalismo, a relação entre leitores, editores e plataformas pode mudar ainda mais, com menor tráfego para fontes tradicionais e maior dependência de intermediários.
Vários casos envolvendo o Google são trazidos como exemplo. A mudança de tráfego e a forma como a IA responde a perguntas impactam a forma de consumo de notícias. Mesmo diante disso, o Google continua a enviar leitores para editores, ainda que em ritmo menor que no passado.
O texto cita ainda sugestões para enfrentamento. Entre elas, defender direitos de propriedade intelectual, renegociar contratos com IA de forma cuidadosa e manter os editores como provedores diretos de conteúdo para o público, fortalecendo a relação com leitores.
A WAN-IFRA e o Times defendem uma atuação conjunta, que inclua pressão legislativa por políticas claras, como proteção de propriedade intelectual e responsabilização das plataformas por conteúdo difamatório gerado por IA. Também defendem estreitar cooperações entre áreas criativas.
Sobre o papel interno das redações, o documento recomenda usar IA de modo responsável, estabelecer padrões e explorar plenamente o potencial da tecnologia para melhorar o jornalismo e a sustentabilidade das organizações. O objetivo é transformar IA em ferramenta de apoio, não em ameaça.
O texto encerra destacando o valor da informação e do jornalismo de qualidade. Mesmo com o crescimento da IA, a confiança do público permanece maior em fontes jornalísticas profissionais. A mensagem final é reforçar que o jornalismo original é imprescindível para democracias estáveis.
O artigo ressalta ainda que a era da IA exige respostas rápidas e bem fundamentadas. A comunidade jornalística precisa agir de forma coesa para defender a viabilidade do jornalismo independente, sem abrir mão do avanço tecnológico responsável. O futuro depende das escolhas feitas hoje.
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