- Fernando Gasparian foi empresário e editor que lançou o jornal Opinião em novembro de 1972 e a revista Argumento pouco depois, buscando uma imprensa mais sóbria durante a ditadura.
- O jornalista atuou na América Fabril, liderou a edição do Opinião no Rio de Janeiro e manteve estreita relação com intelectuais como Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e Otto Maria Carpeaux.
- Em 1973, o governo intensificou a censura após o caso da morte de Alexandre Vannucchi Leme, levando o Opinião a ser pressionado pela Polícia Federal e, finalmente, a ter textos vetados e edições proibidas.
- Ainda que tentou contornar as censuras, Gasparian encerrou o jornal após quatro anos e meio; a editora Paz e Terra ganhou importância com obras de Paulo Freire e Eduardo Galeano, entre outros.
- Gasparian também participou da campanha pelas Diretas, foi deputado constituinte pelo PMDB e apoiou a candidatura de Fernando Henrique Cardoso; morreu em 2006, aos 76 anos.
No livro Um Homem Chamado Opinião, Márcio Pinheiro narra a trajetória de Fernando Gasparian, empresário e editor que desafiou a censura durante a ditadura. A obra retoma a história recente do jornalismo brasileiro, tema já explorado pelo autor em Rato de Redação: Sig e a História do Pasquim.
Gasparian formou-se em engenharia pelo Mackenzie e construiu atuação empresarial no setor têxtil, assumindo a América Fabril, grande empresa do ramo. Segundo o filho Marcus, Gasparian era um nacionalista independente, sem se enquadrar em padrões de esquerda ou de mercado.
A partir de 1967, a ditadura freou sua ascensão, com ações de autoridades ligadas ao governo federal. O livro aponta intervenções de Delfim Netto na Fazenda como fatores para descrédito à gestão de Gasparian, destacando também o papel de Ruy Solberg, advogado da América Fabril.
Por razões familiares, Gasparian mudou-se com a família para Londres, onde passou a lecionar. Em 1972, retornou ao Brasil e lançou o jornal Opinião, que assumiu posição séria e crítica, distanciando-se de tonais sectários dos semanários da época.
Opinião: jornalismo sóbrio frente à censura
A equipe contou com Raimundo Rodrigues Pereira como editor-chefe e contou com nomes como Paulo Francis, Sérgio Augusto e Tárik de Souza. Celso Furtado, FHC e Otto Maria Carpeaux colaboraram de modo frequente. Em 1973, a morte de Alexandre Vannucchi Leme elevou a tensão com o governo, que exigia aprovação prévia de textos pela PF.
A censura cresceu e o Opinião passou a enfrentar medidas mais duras, com textos proibidos e tentativas de levar denúncias ao STF, além de divulgação estrangeira. Em resposta, Gasparian, Pereira e Tárik foram detidos brevemente em diversas ocasiões.
O jornal continuou, mesmo com o endurecimento das restrições, até que, após quatro anos e meio, restaram menos de metade das páginas originais para os leitores. Do mesmo período, a revista Argumento foi lançada, mas teve vida curta.
Expansão editorial e lutas adicionais
Gasparian também investiu na editora Paz e Terra, que publicou nomes como Paulo Freire e Eric Hobsbawm, além de obras como As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano. Em paralelo, participou ativamente da campanha pelas Diretas.
Em 1978, ele e Dalva abriram a livraria Argumento em São Paulo, com a primeira loja, e criaram a unidade no Rio de Janeiro, em 1979, que permanece até hoje. O movimento democrático ganhou fôlego com sua atuação.
Mais tarde, Gasparian participou da campanha das Diretas, foi eleito deputado constituinte pelo PMDB e apoiou a candidatura de seus amigos à Presidência. Ele faleceu em 2006, aos 76 anos, de infecção generalizada seguida de parada cardíaca.
O prefácio do livro é assinado por Marcelo Rubens Paiva, que relembra o legado do tio Fernando com tom de reverência. A obra, segundo o autor, oferece uma visão completa sobre a resistência à censura e a construção de um jornalismo independente.
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