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Agências de inteligência compram dados de publicidade online para vigiar cidadãos

Dados de publicidade alimentam vigilância pública: empresas vendem localização e identificadores a governos, com IA ampliando o alcance e o risco.

Dados de publicidade podem estar virando ferramenta de vigilância de governos. (Foto: Paolo Aguilar/EFE/ARQUIVO)
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  • Dados são coletados quando o usuário busca anúncios em apps e sites, em leilão em tempo real, com identificadores que podem permitir vincular a pessoa.
  • Corretores de dados reúnem essas informações para criar bancos com localização, hábitos e perfis de usuários, vendidos para quem compra espaço publicitário.
  • O setor Adint (inteligência publicitária) transforma esses dados em ferramentas de vigilância usadas por governos e forças de segurança em diferentes países.
  • Agências norte‑americanas, como ICE e FBI, já utilizam esses recursos, enquanto na Europa o uso também cresce com fornecedores privados.
  • O uso de IA amplia a capacidade de cruzar dados e montar perfis detalhados; há debates legais sobre mandados e regulações em países como EUA e França.

Nos anúncios de sites e apps, dados do usuário são coletados antes mesmo de o conteúdo aparecer. Localização, dispositivo, IP e interesses compõem um retrato inicial.

Essas informações vão para leilões em tempo real. Empresas decidem, em milissegundos, se desejam exibir um anúncio. Outros participantes do leilão também podem ter acesso aos dados.

Corretoras de dados agregam informações de vários leilões. Elas vendem bancos com localização, hábitos de navegação e perfis de comportamento. A prática alimenta uma indústria de vigilância.

Como os dados chegam às agências

O setor conhecido como Adint transforma dados de publicidade em ferramentas de monitoramento. Dados originalmente usados para anúncios passam a rastrear deslocamentos, identificar celulares e reconstruir rotinas.

A indústria de Adint movimenta bilhões e envolve cerca de 15 empresas, segundo reportagem do Le Monde. Muitas têm sede em Israel e foram fundadas por ex-membros de serviços de inteligência ou Forças Armadas.

Representantes de venda prometem rastrear celulares mundialmente, em tempo quase real, sem depender exclusivamente de operadoras. A promessa facilita o acesso de governos a informações de localização.

Quem compra e como funciona na prática

Empresas como Penlink apresentam dados de países inteiros desde 2019, com atualizações que variam de minutos a 24 horas. A italiana RCS oferece ferramentas que rastreiam histórico de até dez anos.

A israelense Wave Guard Technologies comercializa soluções com o slogan de alto alcance global. Em alguns casos, governos fecham contratos diretos com essas fornecedoras.

Nos EUA, o ICE adquiriu uma ferramenta de Adint por US$ 5 milhões e firmou parceria com a Penlink para uso de Webloc, que permite rastrear movimentos de celulares. Fonte: Forbes.

O que os dados permitem descobrir

Dados apresentados como anonimizados costumam ser vinculados a identificadores publicitários. Na prática, esse anonimato pode ser quebrado por cruzamento com outros bancos de dados.

Relatos do Le Monde apontam que, em demonstrações, identificadores puderam ser conectados a identidades reais em larga escala. A empresa negou a afirmação ao jornal. Outras companhias fazem promessas similares.

A partir de um identificador, é possível seguir trajetos, horários, locais frequentes, contatos e atividades em diferentes ambientes. Com IA, a análise ocorre em milhões de registros.

Europa e as implicações legais

Na Europa, Adint é uma fonte importante para serviços de segurança, com regulação ainda fraca em muitos países. Agências públicas compram dados de fornecedores privados, que incluem localização contínua e perfis detalhados.

Especialistas destacam que pacotes podem incluir dados sensíveis, como orientações políticas e crenças, além de informações demográficas. A compra pode ocorrer via empresas de fachada para ocultar a origem pública.

Na França, a DGSE chegou a propor lei para regular compras de dados comerciais por órgãos de inteligência, mas não houve acordo definitivo.

Estados Unidos e debates legislativos

O FBI não nega ter usado dados de localização obtidos no mercado privado, afirmando que são informações comercialmente disponíveis e usadas dentro da lei. A prática gerou debates sobre privacidade.

Além disso, o DHS e o ICE mantêm contratos com ferramentas baseadas em dados de localização. A prática alimenta questionamentos sobre limites legais e constitucionais.

IA e o aumento da vigilância

A inteligência artificial amplifica a vigilância ao cruzar milhões de registros de localização e detectar padrões de comportamento. Perfis detalhados passam a ser viáveis em grande escala.

Especialistas alertam para riscos de uso indevido, mesmo com regulações existentes. Empresas de IA ressaltam a necessidade de salvaguardas para evitar abusos.

Aspectos legais e constitucionais

A compra de dados privados contorna, em muitos casos, exigências de mandado. A Suprema Corte dos EUA confirmou necessidade de mandado para histórico de localização via torres, mas mercados privados permanecem ambíguos.

Analistas afirmam que a prática desafia garantias constitucionais, abrindo espaço para vigilância sem autorização judicial direta. O tema alimenta debates sobre privacidade.

Panorama político e propostas

Na Câmara e no Senado dos EUA, propostas buscam restringir compras de dados por agências de segurança. A ideia é exigir mandados para dados obtidos no mercado privado.

Essa discussão ganhou força no contexto da renovação da Seção 702 da FISA. A resistência da Casa Branca dificultou alterações, mantendo a lei vigente sem a vedação proposta.

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