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Cuidados paliativos: conheça as redes que assistem idosos que estão partindo

De hospitais nos Estados Unidos a comunidades brasileiras, voluntários assumem uma missão essencial: oferecer presença, dignidade e cuidado a quem enfrenta o fim da vida sem suporte familiar.

Idosos em cuidados paliativos. Imagem: FreePik.

No fim da vida, quando diagnósticos se esgotam e intervenções já não mudam o desfecho, resta algo que a medicina não substitui: presença humana. Nos Estados Unidos, o programa No One Dies Alone (NODA) ganhou notoriedade ao garantir que pacientes em estado terminal não enfrentem suas últimas horas sozinhos. Mas essa lógica também avança no […]

No fim da vida, quando diagnósticos se esgotam e intervenções já não mudam o desfecho, resta algo que a medicina não substitui: presença humana.

Nos Estados Unidos, o programa No One Dies Alone (NODA) ganhou notoriedade ao garantir que pacientes em estado terminal não enfrentem suas últimas horas sozinhos. Mas essa lógica também avança no Brasil, onde uma rede crescente de voluntários atua para levar cuidado paliativo a idosos em situação de vulnerabilidade.

Aqui, o desafio é ainda mais complexo.

O envelhecimento acelerado da população, somado a desigualdades sociais históricas, faz com que milhares de idosos cheguem à fase final da vida sem estrutura familiar, acesso contínuo à saúde ou suporte emocional. É nesse vazio que surgem iniciativas que vão além da assistência médica: elas oferecem escuta, companhia e dignidade.

Em diferentes regiões do país, grupos organizados têm estruturado um modelo de cuidado que combina assistência profissional e voluntariado.

Um exemplo é o Peregrinos do Cuidar, que reúne voluntários de áreas como enfermagem, psicologia, fisioterapia e nutrição para acompanhar pacientes, muitos deles idosos com câncer, em cuidados paliativos. O trabalho não se limita ao controle de sintomas: inclui acolhimento emocional e suporte direto às famílias.

A Associação Keralty, por sua vez, atua em parceria com instituições de saúde e mobiliza milhares de voluntários em ações voltadas a populações vulneráveis. Entre elas, idosos que enfrentam doenças crônicas avançadas sem rede de apoio estruturada.

Já o Grupo Luta Pela Vida, conhecido pelo trabalho com pacientes oncológicos, mantém um núcleo robusto de voluntariado. São centenas de pessoas dedicadas à humanização hospitalar, desde atividades simples, como conversas e leitura, até apoio contínuo a pacientes e familiares durante a progressão da doença.

Mas é fora dos hospitais que algumas das iniciativas mais inovadoras têm ganhado força.

Projetos como as chamadas Comunidades Compassivas chegaram a áreas como Vidigal e Rocinha, nas quais levam os cuidados paliativos para dentro das casas, adaptando o suporte à realidade de territórios vulneráveis. A proposta é criar redes locais de cuidado, envolvendo vizinhos, lideranças comunitárias e voluntários treinados para acompanhar pacientes no domicílio.

A lógica é descentralizar o fim da vida e humanizá-lo.

Em instituições de longa permanência, como o Lar Vicentino, o voluntariado também cumpre um papel essencial. Ali, onde muitos idosos vivem sem visitas frequentes, a presença de voluntários representa mais do que apoio: é, muitas vezes, o único vínculo afetivo contínuo.

Apesar das diferenças de formato, essas iniciativas convergem em um ponto central: o cuidado paliativo não trata apenas da doença, mas da pessoa como um todo:

Quando uma pessoa descobre uma doença e se depara com a existência de algo que a faz correr risco de vida, ela passa por sofrimentos em todas as dimensões humanas. Começa com o sofrimento físico, que é o mais óbvio, mas passa pelo sofrimento emocional; pelo sofrimento familiar, social e espiritual”, afirma a Dra. Ana Claudia Quintana Arantes, geriatra e autora do livro “A morte é um dia que vale a pena viver”.

Isso inclui quatro dimensões fundamentais: física, emocional, social e espiritual.

Na prática, o trabalho voluntário se traduz em gestos simples e constantes: sentar ao lado, ouvir histórias, segurar a mão, ajudar em pequenas rotinas, oferecer conforto em momentos de dor ou ansiedade. Para as famílias, quando presentes, significa também dividir o peso de um processo que costuma ser solitário e exaustivo.

Especialistas em cuidados paliativos apontam que esse tipo de suporte reduz sofrimento, melhora a qualidade de vida e ajuda a dar sentido aos últimos dias, mesmo quando o tempo é curto.

Mais do que prolongar a vida, trata-se de qualificar o tempo que resta. A Dra. Renata Freitas, diretora do Hospital do Câncer IV, afirma que paliativo é acompanhar o paciente que vai evoluir até a morte ou a cura. “A equipe faz com que aquela jornada seja a mais confortável possível”. 

Em um país onde o acesso a cuidados paliativos ainda é concentrado em grandes centros, o avanço dessas redes voluntárias revela uma mudança silenciosa e necessária. Elas preenchem lacunas do sistema de saúde e, ao mesmo tempo, resgatam um valor essencial: ninguém deveria enfrentar o fim sozinho.

Se nos Estados Unidos o NODA transformou a forma como hospitais lidam com a solidão no fim da vida, no Brasil essa transformação ganha contornos próprios, mais comunitários, mais informais, mas igualmente potentes.

No centro de tudo, permanece a mesma ideia. Quando já não há mais o que curar, ainda há muito o que cuidar.

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