Em Alta NotíciasPessoasAcontecimentos internacionaisConflitosPolítica

Converse com o Telinha

Telinha
Oi! Posso responder perguntas apenas com base nesta matéria. O que você quer saber?

“A fé não pode servir de esconderijo”

A fala da pastora Helena Raquel não acusa a igreja. Cobra dela aquilo que o Evangelho prometeu ser: lugar de proteção.

Imagem: FreePIK.

Existe um paradoxo moral que costuma circular em debates sobre intolerância e violência: “se dez pessoas estão sentadas à mesa, um abusador se senta e ninguém se levanta, então há onze abusadores à mesa”. A frase é dura porque desloca o foco do agressor para o ambiente. O problema deixa de ser apenas quem pratica […]

Existe um paradoxo moral que costuma circular em debates sobre intolerância e violência: “se dez pessoas estão sentadas à mesa, um abusador se senta e ninguém se levanta, então há onze abusadores à mesa”. A frase é dura porque desloca o foco do agressor para o ambiente. O problema deixa de ser apenas quem pratica a violência e passa a ser também quem a normaliza pelo silêncio, pela omissão ou pelo medo de “causar escândalo”.

Lembrei disso ao ver a repercussão do discurso da pastora Helena Raquel nas redes sociais. Os trechos viralizados de suas pregações tocaram em temas que por décadas circularam apenas como fofocas de corredor em muitas comunidades religiosas: violência doméstica, abuso sexual, pedofilia, manipulação espiritual, acobertamento institucional.

Mas talvez o ponto mais importante de sua fala não seja exatamente a denúncia. É o deslocamento moral que ela propõe.

Porque, no fundo, Helena Raquel não está acusando a igreja de ser naturalmente violenta. Está lembrando que qualquer comunidade humana, igreja, clube, associação, família, partido político, torcida organizada, produz responsabilidade coletiva. Quando alguém entra numa comunidade, entra também num pacto de cuidado mútuo. E esse pacto deixa de existir quando a reputação da instituição vale mais do que a segurança das pessoas.

Durante muito tempo, o tema foi tratado como tabu em setores religiosos. Não apenas por conservadorismo moral, mas porque a própria estrutura vertical de autoridade favorecia o abafamento. Em muitos ambientes, denunciar um líder equivalia quase a desafiar a Deus. Versículos eram transformados em mecanismo de intimidação psicológica. A expressão “não toqueis no ungido do Senhor” virou, em certos contextos, uma blindagem informal contra investigação moral.

A vítima carregava culpa dupla. Sofria a violência. Depois sofria a acusação indireta de estar “escandalizando a obra”.

Helena Raquel toca exatamente nesse ponto quando afirma: “A maior parte das pessoas que são vítimas em igrejas evangélicas de violência doméstica ou de violência sexual, elas são orientadas a não denunciar o culpado (…) me lembro perfeitamente de pessoas que diziam sobre alguém: ‘Pelo amor de Deus, não fala para não escandalizar’.”

A frase é importante porque desmonta uma ficção confortável: a de que o silêncio sempre foi exceção. Não foi. Em muitos casos, ele era protocolo informal de sobrevivência institucional.

Historicamente, comunidades religiosas aprenderam a lidar muito melhor com pecado privado do que com crime público. O adultério podia ser confessado. A agressão doméstica era “problema de casal”. O abuso infantil virava assunto para oração interna. Em certos ambientes, criou-se uma espécie de gaslighting espiritual permanente: a vítima era convencida de que denunciar destruiria ministérios, afastaria almas da igreja ou atrairia “maldição”.

O perdão cristão era usado como anestesia jurídica.

Mas algo começou a mudar.

O crescimento das redes sociais e de movimentos como #ChurchToo – espécie de derivação religiosa do #MeToo – rompeu o monopólio institucional da narrativa. Antes, uma igreja conseguia controlar a circulação de informação internamente. Hoje, vítimas encontram coletivos de ex-membros, grupos de acolhimento, advogados, jornalistas e comunidades digitais inteiras compartilhando relatos semelhantes em tempo real.

Casos antes abafados passaram a ganhar dimensão pública. No Brasil, um dos episódios mais ruidosos envolveu Felipe Heiderich, acusado de abuso infantil, num caso que dividiu comunidades evangélicas e expôs o mecanismo quase automático de proteção à figura carismática do líder religioso.

No exterior, a denominação Hillsong Church atravessou uma sequência de escândalos envolvendo denúncias de abuso, má conduta financeira e acobertamento institucional, culminando na saída de figuras centrais como Brian Houston. O caso foi importante porque desmontou a ideia confortável de que abusos seriam desvios isolados de pequenas igrejas periféricas. O problema atravessa tamanho, país, idioma e modelo teológico.

Outro ponto sensível aparece nas chamadas comunidades terapêuticas ligadas a grupos religiosos. Em muitos casos sérios, elas salvam vidas. Em outros, o isolamento dos internos, a dependência emocional e a ausência de fiscalização externa criam ambientes particularmente vulneráveis para abusos.

Nada disso significa que igrejas sejam violentas. Significa apenas que instituições humanas tendem a produzir zonas de sombra quando autoridade excessiva encontra ausência de controle. E talvez seja justamente aí que a fala de Helena Raquel ganha relevância. Ela não pede caça às bruxas. Pede proteção.

Quando diz “pedófilo não é ungido”, ela desmonta uma confusão perigosa entre autoridade espiritual e imunidade moral. “Pedófilo não é ungido. Pedófilo é criminoso. Não existe capacidade de se encontrar na mesma figura um pastor e um abusador. Ou é pastor, ou é abusador.”

A frase viralizou porque rompe uma lógica antiga das comunidades religiosas brasileiras: a ideia de que a função espiritual pode suspender temporariamente a responsabilidade ética.

Não pode.

E há algo importante acontecendo sociologicamente nesse processo. Durante décadas, líderes religiosos que tocavam nesses temas corriam risco de isolamento institucional. Hoje, começa a surgir um movimento oposto: comunidades inteiras passaram a enxergar o enfrentamento do abuso não como ataque à fé, mas como condição para preservá-la.

Talvez porque as novas gerações tenham desenvolvido baixa tolerância à ideia de autoridade incontestável. Talvez porque a internet tenha destruído o segredo. Talvez porque mulheres evangélicas tenham começado a ocupar espaços públicos de fala antes restritos. Talvez tudo isso junto.

Helena Raquel sintetiza essa mudança quando escreve: “Existe algo que a igreja não pode mais fazer: se omitir. Não existe unção que justifique abuso. Não existe chamado que autorize agressão”.

Há uma diferença profunda entre proteger uma comunidade e proteger sua imagem pública. Instituições maduras entendem isso. Instituições inseguras confundem denúncia com perseguição. E aqui está o ponto mais delicado do debate: denunciar violência não destrói a igreja. O que destrói a igreja é transformar o silêncio em doutrina informal.

Porque toda comunidade humana ensina moral não apenas pelo que condena, mas também pelo que tolera calada. Quando Helena Raquel diz: “Joga o travesseiro da conivência no lixo, levante-se e faça alguma coisa”, ela está propondo uma ética comunitária elementar: proteger a si mesmo é também proteger os outros. Denunciar um agressor não é “ferir a obra”. É impedir que novas vítimas apareçam.

No fim, talvez o debate não seja apenas religioso. Seja civilizacional.

Toda instituição que se pretende espaço de acolhimento enfrenta cedo ou tarde a mesma escolha: preservar reputações ou preservar pessoas.

As que escolhem a primeira opção normalmente acabam perdendo as duas.

Relacionados:

Comentários 0

Entre na conversa da comunidade

Os comentários não representam a opinião do Portal Tela; a responsabilidade é do autor da mensagem. Conecte-se para comentar

Veja Mais