Em 2007, uma reportagem da TV Morena revelou uma clínica de planejamento familiar em Campo Grande que, na prática, atuava há quase duas décadas com serviços de ginecologia, DIU e abortos. A divulgação levou a uma operação policial e à apreensão de fichas de 9.896 pacientes, atrelando o caso ao maior processo penal por aborto já registrado no Brasil.
O episódio ficou conhecido como Caso das 10 Mil e é apresentado no livro-reportagem Coreografia da Escolha, de Angela Boldrini e Carolina Moraes, pela editora Fósforo. As autoras afirmam que o caso mudou a organização de forças políticas em torno do aborto no país.
O livro aponta que o episódio cristalizou uma dissociação entre prática privada, muitas vezes clandestina, e discurso público dominante. Ao longo de três anos, as autoras ouviram políticos, médicos, ativistas e mulheres que passaram pela experiência, com pesquisa de campo e participação discreta em atividades antiaborto.
A obra utiliza a ideia de coreografia para descrever a disputa, segundo as autoras, repetida entre progressistas e conservadores. A socióloga Jacqueline Pitanguy é citada como quem sugeriu a metáfora da dança que envolve os mesmos atores.
A narrativa destaca ainda a importação de retóricas antiaborto dos Estados Unidos para o Brasil desde a década de 1980, com a presença do padre Paul Marx e da organização Human Life International, que trouxeram conceitos como o conceito de “personalidade fetal” e a ideia de vida desde a concepção.
Boldrini ressalta que o discurso antiaborto tende a ser homogêneo por ter base em instituições como a Igreja Católica e movimentos ultraconservadores estrangeiros. A autora também observa que, no Brasil, o debate por saúde pública é central para relacionar o tema às desigualdades de acesso.
Segundo o livro, a luta pela descriminalização seguiu vias distintas em cada país. Enquanto o movimento feminista brasileiro enfatizou o enquadramento como questão de saúde pública, a decisão histórica nos Estados Unidos, de 1973, reconheceu o direito ao aborto, até 2022 quando houve mudança na reversão desse entendimento em alguns estados.
No Brasil, o problema principal é o estigma: o aborto é visto como questão privada, não atribuída a um direito público. Boldrini aponta que muitas mulheres não se declaram a favor do aborto, mesmo assim recorrem ao procedimento.
A obra também destaca o rigor jurídico aplicado a quem aborta no país, com penas que podem superar as previstas para tráfico de drogas. O livro mostra que a repressão contrasta com a continuidade de práticas, clandestinas ou não, em diferentes contextos regionais.
Exemplos recentes, como o PL 1904/24, mostram que nem toda mobilização ocorre segundo o roteiro. A reação ao projeto antiaborto por estupro estimulou o movimento feminista a aprimorar a comunicação e a percepção pública sobre o tema, segundo Moraes.
Para as autoras, o jogo político em torno do aborto está sempre em movimento, com novos discursos surgindo e novas coalizões se formando diante de cada derrota ou vitória. A obra, portanto, procura mapear as dinâmicas que moldaram a disputa ao longo das décadas.
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