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Chefes de supervisão do Banco Central atuavam em favor de Vorcaro, diz PF

Segundo a PF, servidores deram orientações, revisaram documentos e atuaram em favor do Master em troca de pagamentos

A Polícia Federal encontrou indícios de que dois servidores do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, atuavam em favor dos interesses de Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.

Segundo relatório da PF, Paulo Sérgio, que era chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), orientava Vorcaro, revisava documentos e buscava influenciar decisões dentro do Banco Central.

Belline,  que chefiava o mesmo departamento, também teria prestado uma espécie de consultoria ao banqueiro. A investigação ainda aponta que os dois servidores receberam pagamentos ordenados por Vorcaro pelos serviços prestados.

As informações constam do inquérito do caso Banco Master, cujo sigilo foi derrubado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça na quinta-feira (10), após pedido do presidente da Corte, Edson Fachin.

Paulo Sérgio orientava Vorcaro sobre assuntos no BC

As mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro mostram que o primeiro contato registrado entre o banqueiro e Paulo Sérgio ocorreu em 20 de outubro de 2023.

Na ocasião, o servidor enviou diretamente a Vorcaro uma publicação do Diário Oficial da União com sua nomeação para o cargo de chefe-adjunto de unidade do Departamento de Supervisão Bancária.

A partir daí, segundo a PF, Paulo Sérgio passou a atuar como uma espécie de consultor do banqueiro. Em uma das conversas, o servidor teria indicado “prioridade absoluta” para assuntos de interesse de Vorcaro.

A investigação identificou ainda mensagens em que Paulo Sérgio orientava o banqueiro antes de reuniões com integrantes da direção do Banco Central.

Antes de uma reunião com o presidente do BC, por exemplo, o servidor teria enviado espontaneamente os tópicos que deveriam ser destacados por Vorcaro durante o encontro.

Em fevereiro de 2024, antes de uma reunião com o diretor de Fiscalização, Ailton Aquino, Paulo Sérgio também teria orientado o banqueiro sobre perguntas que poderiam surgir a respeito de suas relações com a Reag Investimento e João Carlos Mansur, o fundador da instituição.

Servidor teria tentado influenciar decisões do BC

A PF também identificou situações em que Paulo Sérgio teria atuado para ajudar Vorcaro em negócios envolvendo instituições financeiras.

Um dos casos citados envolve o WillBank. Segundo o relatório, Vorcaro teria recebido uma negativa em um processo relacionado à aquisição do banco pelo Master/Reag. Nas mensagens, Paulo Sérgio aparentaria atuar para que o Banco Central pudesse “revisar o posicionamento”.

O servidor também teria revisado documentos preparados por Vorcaro para serem encaminhados ao Banco Central. Algumas das minutas, segundo a investigação, eram destinadas ao próprio Departamento de Supervisão Bancária e ao próprio Paulo Sérgio.

Paulo Sérgio também teria intermediado negócios

A investigação cita ainda uma possível atuação do servidor como interlocutor de interesses comerciais de Vorcaro. Em 2023, Paulo Sérgio teria informado ao banqueiro que possuía um comprador para o Letsbank.

O interessado seria Daniel Wainstein, mas a informação não foi confirmada pela investigação. O assunto voltou às conversas em outubro de 2024. Desta vez, Paulo Sérgio teria informado que o Nubank estaria interessado na aquisição.

Segundo a PF, o servidor questionou Vorcaro sobre valores e afirmou que repassaria as informações aos interessados.

Negociação com o BRB virou foco em 2025

Em 2025, grande parte das conversas entre Paulo Sérgio e Vorcaro passou a tratar da tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). De acordo com a PF, a operação era o principal plano de Vorcaro para enfrentar a crise de liquidez do Master.

As mensagens indicam, segundo a investigação, que Paulo Sérgio orientava o banqueiro sobre a negociação com o BRB, tanto na aquisição do Master quanto na cessão de créditos da instituição.

O servidor também teria participado de assuntos relacionados a empréstimos obtidos junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), outra fonte de liquidez do Banco Master.

Belline também teria prestado consultoria a Vorcaro

A relação entre Daniel Vorcaro e Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC, teria começado em 2023 e continuado até pelo menos o fim de 2025.

Segundo a PF, Belline também prestava uma espécie de “consultoria especializada” ao banqueiro.

Em abril de 2024, Belline teria organizado uma reunião com Vorcaro e Paulo Sérgio para discutir uma “visão prospectiva e estratégica”.

O servidor teria permitido que o próprio banqueiro escolhesse o local do encontro: a sede do Banco Central ou a sede do Banco Master.

A PF também encontrou registro de uma reunião entre Belline e Vorcaro na residência pessoal do banqueiro, em 14 de março de 2024.

Grupo no WhatsApp reunia Vorcaro e os 2 servidores

A proximidade entre os três também aparece na criação de um grupo de WhatsApp chamado “Master”.

O grupo foi criado em 2 de outubro de 2025 por iniciativa de Belline e reunia o banqueiro, Paulo Sérgio e o chefe do Desup. Segundo a PF, o objetivo era facilitar a comunicação entre os envolvidos.

Além das conversas, a Polícia Federal encontrou indícios de que Belline e Paulo Sérgio receberam pagamentos ordenados por Vorcaro.

Segundo o relatório, os valores teriam sido ocultados por diferentes mecanismos, como empresas intermediárias, contratos de prestação de serviços, transações imobiliárias e pagamento de despesas no exterior.

No caso de Belline, as conversas sobre pagamentos teriam começado em dezembro de 2023.

A PF afirma que Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, teriam articulado uma forma de remunerar o servidor por meio da empresa Varajo Consultores.

Para justificar os pagamentos, teria sido simulada uma contratação para que Belline participasse de um estudo sobre a inserção de jovens no mercado financeiro.

Planilha registra pagamento de R$ 500 mil

A investigação encontrou planilhas compartilhadas entre Zettel e Vorcaro com registros dos pagamentos feitos a Belline.

Em uma delas, que reunia as chamadas “despesas fixas mensais”, aparece um pagamento de R$ 500 mil para o servidor do Banco Central.

Segundo a PF, Leonardo Palhares, apontado como responsável pela empresa utilizada nos pagamentos, tinha conhecimento da operação.

Em uma conversa, Palhares se refere a Belline como “aquele amigo que contratei um estudo dele” e afirma que iria “manter ele próximo e acalmá-lo”.

A investigação também encontrou indícios de que Vorcaro teria custeado despesas de Belline em Paris, incluindo almoço, jantar e serviço de guia.

Banco Central comunicou suspeitas à PF

O próprio Banco Central encaminhou à Polícia Federal uma comunicação sobre condutas de servidores que poderiam configurar corrupção passiva. Os servidores citados foram justamente Belline Santana e Paulo Sérgio.

Segundo o relatório, os dois foram chamados à sala do presidente do Banco Central e questionados administrativamente sobre os contatos mantidos com Vorcaro e sobre o possível recebimento de vantagens indevidas.

A PF afirma que a versão apresentada por Belline durante a apuração administrativa seria incompatível com o conteúdo das mensagens encontradas no celular de Vorcaro.

Os dois servidores foram posteriormente afastados pelo Banco Central das funções de confiança que exerciam na instituição.

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