Em meio a uma disputa global por fósseis, países ricos concentram a maior parte dos estudos e dos espécimes, enquanto nações de renda média e baixa reivindicam devolução de achados que teriam sido retirados ilegalmente de seus territórios. A trama envolve dinossauros, pesquisas acadêmicas e diplomacia internacional.
A contentious história começou com o Tarbosaurus bataar, levado de leilão por Nicolas Cage em 2007 e alvo de processo na Mongólia. O fóssil retornou ao país em 2012, após avaliação de que havia sido traficado, e hoje está em exposição em Ulaanbaatar. O caso foi decisivo para o repatriamento de muitos fósseis mongóis.
Pesquisas de 2021 revelaram um padrão: fósseis de Sul Global são estudados majoritariamente por equipes do Norte, com autores que não pertencem aos países de origem. O estudo criou o Parachute Index, que classifica países como mais ou menos envolvidos no tráfico intelectual de fósseis.
Colonialismo científico
A expressão designa a prática de pesquisadores de fora estudar fósseis de outros países sem envolvimento local. Dados apontam que 97% dos estudos sobre fósseis estão em nações de renda alta, enquanto a origem dos fósseis é amplamente de países em desenvolvimento. O problema não é apenas a pesquisa, mas também o armazenamento em instituições do Norte.
Bolortsetseg Minjin, pesquisadora da Mongólia, lidera a repatriação de fósseis desde 2012. O debate ganhou força com o caso Ubirajara Jubatus, um dinossauro brasileiro cuja descrição científica ficou em suspense após divergências éticas. O fóssil acabou retornando ao Brasil em 2023.
O caso Ubirajara Jubatus
O embargo começou com o lançamento de um artigo sobre o dinossauro brasileiro encontrado no Ceará, cujo holótipo estava na Alemanha. Aline Ghilardi, pesquisadora brasileira, denunciou a situação e popularizou a campanha #UbirajaraBelongsToBrazil. O episódio impulsionou mudanças éticas em periódicos científicos.
O desfecho envolveu a suspensão do estudo e a repatriação do fóssil para o Ceará. Mesmo assim, o caso provocou debate sobre como nomes científicos são utilizados e sobre quando um achado deixa de ser válido. O episódio estimulou maior cooperação entre Brasil e Alemanha.
Irritator e o movimento pela repatriação
Outro caso emblemático envolve Irritator challengeri, com crânio coletado na Bacia do Araripe. O crânio foi aumentado com peças de outros fósseis para ficar mais completo, o que gerou descontentamento entre pesquisadores brasileiros e motivou campanhas para devolução. A disputa ainda tramita no museu alemão onde o esqueleto fica.
O Itamaraty afirma que negociações pela devolução do Irritator seguem em curso desde 2023, com participação de autoridades brasileiras e alemãs. Pesquisadores defendem que a colaboração bilateral facilite futuras repatriações de fósseis brasileiros mantidos no exterior.
Perspectivas e impactos
Casos como Ubirajara e Irritator evidenciam que a repatriação de fósseis depende de ações governamentais constantes e de ética na pesquisa. Países como França e EUA já devolveram itens a destinos como Brasil e Mongólia, sinalizando um caminho possível para novas restituições. A colaboração internacional é apontada como essencial para reduzir o tráfico de fósseis.
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