Praça Rodrigues dos Santos, no centro de Santarém, vive um paradoxo entre memória e descarte. O espaço, marcado por buracos e lixo, abriga a estátua de um sacerdote e uma placa que rememora a Aldeia Ocara-Açu, núcleo indígena que antecedeu a cidade.
A cidade, com cerca de 330 mil habitantes, tem o Tapajós como eixo e abriga hoje um terminal de soja da Cargill desde 2003, que altera o perfil urbano ao longo do rio. O conjunto revela tensões entre passado histórico e desenvolvimento econômico.
Segundo pesquisadores, Ocara-Açu foi centro de uma vasta rede de assentamentos pré-coloniais na região, com milhares de moradores antes da conquista europeia. Atualmente, poucas referências públicas valorizam esse passado.
UFOPA aponta que Santarém carece de preservação do patrimônio histórico. A cidade cresceu com ruas de concreto, obscurecendo vestígios de culturas indígenas que moldaram a ocupação do Tapajós e áreas ribeirinhas.
Aldea dos Tapajós, como era chamada a comunidade, pode ter abrigado entre 3 mil e 5 mil pessoas, segundo arqueólogos. Especialistas ressaltam que a urbanidade indígena era mais complexa do que o rótulo de “vila” sugere.
Casos de enterramentos e cerâmicas foram encontrados em sítios como Aldeia e Porto, hoje afetados pela expansão urbana e pela infraestrutura portuária, inclusive pela área da terminal da Cargill. Parte do passado está sob estruturas modernas.
Historiadores destacam que a compreensão da ocupação regional muda após o uso de tecnologias como lidar. Pesquisadores defendem que muitos sítios merecem proteção como monumentos culturais, não apenas como memória ambiental.
Entretanto, a memória indígena permanece pouco visível na paisagem de Santarém. Protagonistas locais defendem demarcação, educação e saúde como prioridades para as comunidades que habitam a região. Decisões públicas moldam o território.
Ao longo dos anos, movimentos indígenas questionaram decisões urbanas que ameaçavam áreas centrais de memória. A mobilização incluiu produção de vídeos e ações coletivas para impedir a demolição de elementos históricos da praça.
Especialistas destacam que o que hoje é visto como patrimônio pode ganhar novo significado se a praça central for rebatizada como Ocara-Açu, reconhecendo a história tupinambá e Tapajós que moldaram a cidade.
Na prática, Santarém continua sendo um mosaico entre memória indígena, expansão portuária e o cotidiano urbano. Pesquisas locais reforçam a necessidade de integrar passado e presente no planejamento da região.
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