A maioria das decisões de conservação na África usa a IUCN Red List como mapa definitivo de risco de extinção, o que não é verdade. Muitas espécies de plantas não foram avaliadas globalmente, ou têm avaliações antigas, o que gera lacunas importantes para políticas, financiamento e manejo de viveiros.
Dados globais indicam que, entre cerca de 350 mil espécies vasculares, apenas ~62.666 foram avaliadas pela IUCN, o que corresponde a cerca de 18%. A maioria permanece sem categoria de risco definida para orientar ações concretas.
Na África, a deficiência fica ainda mais evidente. Em Moçambique, de 1.667 espécies registradas, 76,5% não tiveram o estado de extinção global avaliado, incluindo espécies marcadas como NE (não avaliado) ou não listadas. Isso aponta para um grande vazio de informações.
Em escala africana tropical, uma análise revisada mostrou que de 22.036 espécies de plantas verdes, apenas 2.856 tinham avaliações completas da IUCN (≈ 13%), e apenas 2.009 tiveram avaliações após 2001. Em resumo, 87% dos casos datam de há 25 anos ou mais.
NE não significa segurança: a categoria NE indica apenas que a espécie ainda não foi avaliada conforme critérios da Red List. Na prática, muitos casos na África não aparecem no list global, ou são tratados informalmente como NE, abrindo varreduras cegas para a conservação.
O problema operacional fica explícito na lista de Moçambique, que trata NE como uma única categoria para espécies avaliadas e ausentes da lista, gerando o mesmo vazio de informação para planejamento.
O segundo desafio é o atraso nas avaliações: espécies avaliadas globalmente podem não ser reavaliadas há décadas, o que é arriscado para espécies de madeira de alto valor, lentas na regeneração e sujeitas a extração.
Praticamente, a Red List não substitui o julgamento de campo. Quando uma espécie aparece com LC/NT/VU há muito tempo, ou não consta e é visto como não ameaçado, pode haver subestimação da urgência diante de declínio registrado na prática.
A reportagem defende um caminho de “Red List + Realidade”: combinar avaliações globais com dados locais, para não depender apenas de critérios gerais. Entre propostas, destacam-se:
- priorização em dois canais: categoria IUCN e uma nota de risco de campo (0-3) baseada em extração, perda de habitat e falha de recrutamento;
- sinalizar atraso de avaliação como fator de risco, tratando avaliações com mais de 10 anos como defasadas e prioritárias para revisão;
- usar listas de verificação e herbários para mapear lacunas, replicando abordagens nacionais que indiquem percentual de flora não avaliada e quais espécies ameaçadas faltam ou estão mal características;
- criar fluxos de reavaliação acionados por operadores de viveiro, fonteiros ou botânicos que detectem declínio rápido ou novas ameaças;
- evitar que os mercados ditem coleções de conservação, promovendo coleções vivas abertas para espécies nativas regionais, independentemente de estarem avaliadas ou não.
Organizações locais já adotam medidas, como o Lukango Tree Conservancy, que mantém uma política de portas abertas para espécies nativas regionais não ainda representadas em coleções, mantendo a missão de conservação acima de interesses comerciais. Trata-se de equilibrar disponibilidade de plantas com critérios de proteção da biodiversidade.
Khaya anthotheca e outras espécies africanas enfrentam pressões de desmatamento e uso madeireiro; a necessidade de dados atualizados e de ações locais é enfatizada por especialistas. A proposta é fortalecer sistemas que integrem avaliação global com dados de campo, mantendo a conservação como prioridade informada.
Victor Nsereko Wantate, fundador do Lukango Tree Conservancy, lidera iniciativas ligadas a sementes de árvores africanas e ao Dia das Árvores Indígenas, destacando a importância de ações locais conectadas a informações globais para a gestão sustentável da floresta.
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