Durante décadas, neandertais repetiram o depósito de crânios de animais com chifres em uma caverna no centro da Península Ibérica. A prática perdurou por milhares de anos, sem relação direta com alimentação ou abrigo, sugerem análises recentes.
A caverna Des-Cubierta, no vale do Lozoya, perto de Madrid, foi o cenário do achado. Em 2023, pesquisadores anunciaram 35 crânios de grandes mamíferos reunidos numa única camada sedimentar, com foco em cabeças modificadas e ausência de mandíbulas.
Contexto e método
A equipe examinou a formação geológica e a distribuição espacial dos vestígios para distinguir impactos naturais de ações humanas. Observou-se que as pedras do teto formam cone de desmoronamento, enquanto crânios e ferramentas se concentram em áreas específicas, não misturando-se aos detritos.
A análise indicou pausas no acúmulo de sedimentos, com crânios intercalados entre períodos de estabilidade da caverna. A deposição ocorreu ao longo de um intervalo estimado entre 135 mil e 43 mil anos atrás.
Espécies e significados
Os restos pertencem a pelo menos 35 indivíduos de espécies como bisão-da-estepe, auroque, cervídeos e rinocerontes-da-estepe. Todas as peças exibem chifres ou galhadas, mas quase não há mandíbulas ou outros ossos do corpo.
Além disso, foram encontradas mais de 1.400 ferramentas de pedra do tipo musteriense e evidências de uso controlado do fogo, reforçando a presença de tecnologia típica dos neandertais.
Interpretações e limitações
Os autores apontam que a prática pode indicar tradições culturais complexas com dimensões simbólicas, ainda sem definição clara de significado. A repetição ao longo de milhares de anos e a localização específica do acúmulo sustentam essa leitura.
Em entrevista ao Live Science, a pesquisadora principal destacou que a seleção e a deposição dos crânios refletem capacidades culturais além da sobrevivência imediata. As informações ajudam a entender a transmissão cultural entre grupos de neandertais.
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