O caso conhecido como a “pílula do câncer” ficou marcado no Brasil há pouco mais de dez anos. A molécula fosfoetanolamina foi sintetizada por Gilberto Chierice, professor da USP, em seus laboratórios, durante os anos 1990.
No início dos anos 2000, o boca a boca atraiu centenas de pessoas ao campus da USP em São Carlos, em busca do suposto tratamento. Não havia testes pré-clínicos nem clínicos que comprovassem eficácia ou segurança.
A história ganhou espaço na imprensa nacional, criando a crença de que o Brasil encontrara a cura do câncer. Chierice defendia que a substância poderia estimular o sistema imune a reconhecer células cancerosas.
Conteúdo técnico e contorno legal
Em 2014, a USP proibiu a distribuição de medicamentos sem autorização da Anvisa. Pacientes recorreram à Justiça para obter as pílulas, diante da pressão por tratamento.
Parlamentares chegaram a aprovar, em 2016, uma lei para liberar a substância sem respaldo científico. O STF, no entanto, derrubou a norma por considerar necessário o rigor científico.
O governo federal financiou estudos sobre a pílula. As análises indicaram impurezas e baixa concentração de fosfoetanolamina real nas cápsulas.
Estudos clínicos com pacientes humanos não mostraram benefício. Hoje, a fosfoetanolamina é vendida apenas como suplemento alimentar, sem comprovação terapêutica.
Desdobramentos e lições
O caso evidenciou como emoção, pressão pública e desinformação podem sobrepor o método científico, que exige tempo, transparência e validação. A experiência segue sendo discutida em debates sobre acesso a tratamentos.
Entre na conversa da comunidade