A onça-pintada enfrenta risco de sumir da Mata Atlântica por queda na disponibilidade de alimento. Estudo recente, feito por pesquisadores brasileiros e publicado na Global Ecology and Conservation, aponta baixa densidade de presas mesmo em áreas protegidas do bioma.
Na Serra do Mar, unidades de conservação apresentam índice de biomassa de presas de apenas 8,2 kg, com populações de onças bem reduzidas, totalizando até 50 indivíduos. O cálculo se baseou em 40 a 60 pontos de amostra em nove áreas protegidas.
No Parque Nacional do Iguaçu, a maior concentração de onças na porção brasileira ocorre no corredor até a Argentina. Lá, a abundância de presas chega a 638 kg, com cerca de 93 onças estimadas (25 dentro do parque), evidenciando a relação entre predador e alimento disponível.
A onça-pintada está em estado crítico na Mata Atlântica, com estimativa de cerca de 300 indivíduos no bioma, ocupando apenas 2,8% da área original. A pesquisa associa a baixa disponibilidade de alimento a presença humana, caça e fragmentação.
Entre as ameaças, destacam-se perda e degradação do habitat, caça ilegal, abate retaliatório e atropelamentos. Intervenções como Onçafari e Onças do Iguaçu trabalham para conectar áreas protegidas, favorecer a dispersão dos animais e promover educação ambiental para reduzir conflitos.
O que o estudo revela sobre a dieta
A dieta da onça na Mata Atlântica envolve principalmente porcos-do-mato, cervídeos e capivaras. Quando presas de grande porte faltam, as onças recorrem a presas de médio porte, como paca e quati, evidenciando plasticidade alimentar. A ausência de presas eleva a competição com a onça-parda.
Essa mudança gera desequilíbrios ecológicos, com aumento de predadores menores e impactos na vegetação. Roberta Paolino, pesquisadora da USP, destaca que a presença humana reduz a disponibilidade de presas, criando padrões de ocupação e conflito.
Iniciativas para conectar habitats
O Cenap coordena avaliação nacional da conservação e mantém o Plano de Ação Nacional para Grandes Felinos desde 2013. Ricardo Sampaio enfatiza a necessidade de ampliar a base de presas, fiscalizar caça ilegal, reflorestar e promover convivência com comunidades locais.
O Onçafari atua há quase 15 anos, ampliando ações de monitoramento e conectando áreas ameaçadas por desmatamento. O projeto busca ainda criar um corredor ecológico continental na Bacia do Paraná, envolvendo Brasil, Bolívia, Argentina e Paraguai.
Olhando para o futuro
A ambição é conectar 2,5 milhões de km² de áreas preservadas, com arcas da biodiversidade, zonas de amortecimento, trampolins ecológicos e restauração de rios. A meta é manter onça-pintada viável ao longo de duas décadas, fortalecendo a convivência com outras espécies e comunidades locais.
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