Já faz décadas que a ciência estuda Marte usando satélites com sensores SAR, que detectam água subterrânea por meio de radar de abertura sintética. Em terra, esse conceito ganhou aplicação prática para localizar vazamentos de água tratada sob a superfície.
A ideia é da geofísica Lauren Guy, que criou a empresa Asterra. No Brasil, a tecnologia é representada pela Nortech. O sistema cruza dados de radar com algoritmos de inteligência artificial para identificar água potável sob o solo, associada à presença de cloro.
Essa abordagem já foi adotada em China, EUA, Japão e em cidades como Rio de Janeiro e Curitiba. Em São Paulo, a Sabesp contratou a ferramenta por 5,9 milhões de reais, por dois anos, para mapear a Região Metropolitana.
Como funciona a detecção por satélite
O satélite observa a região contratada em busca de sinais de vazamento, cruzando as informações com mapas da cidade e com a rede da Sabesp. Pontos vermelhos indicam maior chance de vazamento, seguidos de amarelo, enquanto azul representa identificação.
A assertividade da Asterra fica acima de 90%, dependendo de fatores como tráfego e obras na cidade. Equipes de geofonistas, treinadas pela empresa, vão aos locais indicados para confirmar o vazamento com o geofone.
Depois da confirmação, os profissionais perfuram o solo para verificar a presença de água. Se o solo sai molhado, o ponto é marcado e encaminhado para reparo. Em muitos casos, a intervenção ocorre em até 24 horas.
Resultados esperados e aplicação local
Antes do contrato, houve um projeto-piloto no centro de São Paulo em 2024. Foi possível encontrar cinco vezes mais vazamentos com o método do que com técnicas tradicionais. A Sabesp prevê recuperar 6,7 bilhões de litros nos primeiros 12 meses.
O mapeamento não depende de adaptações locais para o Brasil. O monitoramento envolve 22 mil quilômetros de rede, com análise inicial de 9 mil quilômetros nos três primeiros meses. A periodicidade recomendada é semestral.
A Sabesp ressalta que a eficácia depende da gestão das equipes e da qualificação dos geofonistas. O objetivo é reduzir perdas reais, evitando rupturas de rede e interrupções no abastecimento.
Desafios e próximos passos
O radar apresenta interferências e não cobre toda a rede, exigindo varreduras contínuas. A operadora ainda aponta que novos vazamentos aparecem com o tempo, justificando novas inspeções periódicas.
Outro desafio é o governo das equipes, já que o trabalho técnico demanda profissionalização e treinamento. A Sabesp planeja expandir o uso da tecnologia para localizar vazamentos de esgoto, com impactos ambientais potencialmente maiores.
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