As vinícolas chilenas reafirmam o retorno dos field blends, agora como protagonista. O tema é explorado pela Viña Santa Rita, que aponta: a pureza de uma única variedade não está na raiz do valor.
Segundo Teresita Ovalle, enóloga da linha Floresta, os blends de campo têm raízes em Maule e Itata, onde pequenos produtores plantavam várias uvas juntas para manter consistência e adaptabilidade local.
Para a especialista, não se trata de nostalgia ou de moda passageira. Hoje, os field blends são vistos como uma forma de entender o vinho, com vantagens estilísticas distintas.
Origem prática e evolução
Historicamente, os field blends surgiram como solução prática. Atualmente, ganham valor pela complexidade e pelo equilíbrio que proporcionam, conforme Ovalle explicou.
Mais do que reaproveitar vinhedos antigos, cresce o interesse em reproduzir esse modelo, ainda que exija visão de longo prazo e gestão diferenciada. A Floresta aposta na convivência entre vinhedos históricos e novos plantios.
Precisão varietal e preço
Por que interplantar variedades? Cada uva oferece contribuição relevante ao blend final, segundo a enóloga.
Vários aspectos respondem aos impactos climáticos de cada ano, permitindo equilíbrio natural entre maturação, acidez e estrutura. O vinho resulta em expressão de lugar e safra, com camadas, textura e frescor.
Os blends podem superar resultados de vinhos varietais em alguns casos e alcançar faixas de preço altas, desafiando a ideia de menor prestígio.
Patrimônio e qualidade no Chile
Ovalle destaca que, no mundo, muitos dos vinhos mais valorizados são blends de campo. O valor está na complexidade, no equilíbrio e na expressão de origem, não na pureza varietal.
No Chile, muitos vinhedos de campo são antigos, de baixa produção e trabalhados de forma artesanal, o que os posiciona, naturalmente, em segmentos de maior qualidade.
Um exemplo raro na Apalta
Um lote de apenas 0,6 hectare, no coração do Vale de Apalta, abriga o Floresta Field Blend Blanco. O vinhedo, com mais de 80 anos, abriga várias variedades conviventes, cultivadas sem irrigação.
O vinho é uma mistura de Moscatel, Semillon e Sauvignon Vert, criado em 2020, e tem recebido reconhecimento de críticos como Tim Atkin e James Suckling, nos últimos anos.
O papel do Semillon
Semillon, historicamente relevante no Chile, aparece como variedade-base em vinhedos antigos de Maule, Itata, Bío-Bío e Colchagua. A uva é vista como patrimônio vitícola, com potencial de envelhecimento.
Ovalle lembra que, nos anos 1950, Semillon liderava a plantação branca do Chile e hoje permanece em áreas históricas, contribuindo para identidade dos vinhos brancos nacionais.
Clima e resiliência
Além da qualidade, blends oferecem resiliência às mudanças climáticas. A diversidade de variedades ajuda a manter acidez, cor e frutos de forma mais natural, reduzindo intervenções.
Quando bem feitos, resultam em vinhos equilibrados e complexos, com intervenção mínima na vinícola.
Branco que avança
Além dos blends, a Floresta lançou, em 2023, um Sauvignon Blanc de colheita tardia. O objetivo é obtê-lo seco, com concentração aromática distinta das Sauvignon Blancs de Leyda.
A produção tardia apresenta menos açúcar residual, mantendo álcool próximo de 13% e introduz perfil aromático mais floral e cítrico, com menos notas pyrazínicas.
Impacto comercial
A categoria de vinhos brancos Floresta impulsionou o crescimento da linha, com aumento de vendas de 62% em 2025 ante 2024, segundo Ovalle.
Ela vê potencial do Chile para liderar o segmento de brancos globalmente, valorizando uvas como Sauvignon Blanc, Chardonnay e Semillon, especialmente em regiões com influências costeiras e vinhas velhas.
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