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Feira do Livro 2026: enquanto as tribos encolhem, os leitores ocupam a praça

A explosão da Feira do Livro 2026 conta uma história mais interessante sobre o Brasil do que a guerra permanente entre identidades

Imagem: Veja.

Artigo de opiniãoA imagem mais bonita que vi nos últimos dias não estava em um palco. Nem em um trio elétrico. Nem em uma manifestação política ou religiosa. Estava em uma fila. Uma fila para comprar livros. Havia crianças arrastando os pais entre as barracas. Casais discutindo quais títulos levar. Gente saindo com sacolas pesadas. […]

Artigo de opinião
A imagem mais bonita que vi nos últimos dias não estava em um palco. Nem em um trio elétrico. Nem em uma manifestação política ou religiosa.

Estava em uma fila.

Uma fila para comprar livros.

Havia crianças arrastando os pais entre as barracas. Casais discutindo quais títulos levar. Gente saindo com sacolas pesadas. Autores conversando com leitores. Professores. Estudantes. Aposentados. Curiosos. Pessoas que foram apenas passear e acabaram voltando para casa com um romance debaixo do braço.

Passei alguns dias na Feira do Livro, na Praça Charles Miller, no Pacaembu. Fiz o pré-lançamento de A Grande Trapaça Digital. Participei de uma conversa sobre música. Caminhei pelos estandes.

E o que mais me chamou a atenção não foi apenas o tamanho do evento.

Foi o clima.

Em um país que parece viver permanentemente à procura de uma nova trincheira, a Feira parecia funcionar na lógica oposta. Ninguém estava ali para derrotar ninguém. Não havia um adversário do outro lado. Não existia uma guerra cultural a vencer antes do jantar.

Havia livros.

Parece pouco. Mas é muito.

Os números ajudam a contar essa história.

A primeira edição da Feira, em 2023, recebeu cerca de 30 mil visitantes. Em 2024, o público saltou para 64 mil. Em 2025, chegou a 80 mil. Para a edição que acaba de terminar, a expectativa dos organizadores era alcançar 110 mil pessoas. Espero que tenham superado.

É um crescimento impressionante para um evento literário realizado em espaço aberto e sustentado por algo que muitos decretaram morto dezenas de vezes: o interesse das pessoas pela leitura.

Olho para esses números e não consigo deixar de compará-los com outros que também circularam neste fim de semana.

Na Parada LGBT, segundo levantamento do Monitor do Debate Político do Cebrap, o pico de público foi de cerca de 74 mil pessoas em 2024, caiu para 53 mil em 2025 e ficou próximo de 33 mil nesta edição.

Na Marcha para Jesus, a discrepância é ainda mais chamativa. Os organizadores falaram em dois milhões de participantes em 2025. A metodologia de contagem aérea utilizada neste ano registrou aproximadamente 38 mil pessoas no momento de maior concentração.

Os números não são diretamente comparáveis. São eventos distintos, com metodologias distintas e propósitos distintos.

Mas talvez revelem algo que vai além deles.

Durante muito tempo, aprendemos a enxergar a sociedade como um conjunto de tribos cada vez mais definidas. Religiosos de um lado. Progressistas de outro. Conservadores aqui. Militantes ali.

Só que existe uma outra camada da vida real que raramente vira manchete.

A das pessoas que simplesmente querem viver experiências enriquecedoras.

Ler um livro. Ouvir uma conversa inteligente. Descobrir um autor. Assistir a um debate. Encontrar amigos. Tomar um café. Passear em uma praça. Participar de algo que não exige a adoção imediata de uma identidade política ou ideológica.

Talvez seja isso que torne a Feira do Livro tão atraente.

Ela não pede que ninguém concorde com ninguém.

Pede apenas curiosidade.

E a curiosidade é um sentimento extraordinariamente democrático.

Nos espaços de conversa, vi gente em discussões sobre literatura, música, história, política, comportamento e mercado editorial. Nos corredores, editoras independentes dividiam espaço com grandes grupos. Autores consagrados atraíam filas, mas pequenos selos também encontravam seus leitores.

Havia algo raro ali. Uma sensação de encontro. Não de alinhamento. Encontro. É diferente.

Nas redes sociais, passamos boa parte do tempo tentando convencer quem pensa diferente. Na Feira, as pessoas pareciam interessadas em compreender quem pensa diferente.

A lógica muda completamente.

Talvez seja cedo para tirar conclusões sobre os números deste ano. Talvez as próximas edições mostrem outra tendência.

Mas confesso que saí da Praça Charles Miller com uma impressão excelente.

Existe uma demanda reprimida por cultura que não seja apenas consumo rápido. Existe uma demanda reprimida por convivência que não seja mediada por algoritmos. Existe uma demanda reprimida por experiências que deixem alguma coisa para trás além de fotos.

O crescimento da Feira do Livro não é apenas uma vitória do mercado editorial. É uma boa notícia sobre as pessoas.

Em tempos de excesso de opinião, ainda há multidões interessadas em conhecimento. Em tempos de excesso de ruído, ainda há quem procure ideias.

E, em tempos em que tantos setores disputam atenção, talvez não exista imagem mais promissora do que milhares de pessoas ocupando uma praça porque decidiram passar o dia entre livros.

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