Uma das inteligências artificiais mais inovadoras foi retirada do ar poucos dias após seu lançamento. O motivo não foi falha técnica, mas uma ordem do governo dos Estados Unidos. Na sexta-feira (12), autoridades americanas proibiram o acesso de estrangeiros aos novos modelos de IA da Anthropic: o Fable 5 e o Mythos 5. Segundo o […]
Uma das inteligências artificiais mais inovadoras foi retirada do ar poucos dias após seu lançamento. O motivo não foi falha técnica, mas uma ordem do governo dos Estados Unidos.
Na sexta-feira (12), autoridades americanas proibiram o acesso de estrangeiros aos novos modelos de IA da Anthropic: o Fable 5 e o Mythos 5. Segundo o governo Trump, os sistemas representam um risco à segurança nacional.
A restrição também passou a valer para funcionários estrangeiros da própria empresa.
Diante da impossibilidade de separar imediatamente usuários americanos e estrangeiros, a Anthropic decidiu suspender globalmente os dois sistemas.
A justificativa oficial foi a existência de potenciais ameaças à segurança nacional. O problema é que, segundo a empresa, as autoridades não detalharam quais seriam esses riscos.
A Anthropic afirma que os modelos passaram por avaliações internas, auditorias independentes e testes realizados em parceria com órgãos governamentais antes do lançamento.
Por isso, classificou a decisão como um “mal-entendido” e informou que trabalha para restabelecer o acesso aos sistemas o mais rápido possível.
Anthropic defende que IA precisa ser submetida a mecanismos externos de controle
O caso ganhou repercussão por ocorrer em um momento de crescente tensão entre a Anthropic e o governo americano.
Nos últimos meses, a empresa se consolidou como uma das principais vozes em defesa de regras mais rígidas para o desenvolvimento da inteligência artificial. Seus executivos argumentam que sistemas cada vez mais poderosos precisam ser submetidos à supervisão externa e mecanismos independentes de controle.
Essa posição contrasta com parte do setor de tecnologia e também com integrantes do governo americano que defendem menos restrições para acelerar a corrida global pela liderança em IA.
A disputa se tornou ainda mais visível após o presidente Donald Trump assinar medidas ampliando a capacidade do governo de revisar novos sistemas antes de sua liberação pública.
Vaticano publicou documento em que alertou para os perigos da IA
A controvérsia ganhou uma dimensão inesperada em maio deste ano, quando o cofundador da Anthropic, Christopher Olah, foi convidado pelo Vaticano para participar da apresentação da primeira encíclica do papa Leão XIV dedicada à inteligência artificial.
O documento, chamado Magnifica Humanitas, alerta para os riscos da automação desenfreada, da concentração de poder tecnológico, da substituição de trabalhadores por algoritmos e do uso militar da inteligência artificial.
A presença de um dos fundadores da Anthropic ao lado do pontífice foi interpretada por muitos analistas como um sinal de que a empresa passou a ser vista como uma relevante no debate internacional sobre ética em IA.
Durante o evento, Olah defendeu que decisões sobre inteligência artificial não podem ficar exclusivamente nas mãos das grandes empresas de tecnologia e pediu maior participação de governos, universidades, líderes religiosos e organizações da sociedade civil.
Nem todos compraram essa narrativa
A aproximação entre Anthropic e Vaticano também gerou críticas.
Pesquisadores e ativistas questionaram se a parceria representava um compromisso genuíno com a segurança da IA ou uma tentativa da empresa de reforçar sua imagem pública como desenvolvedora “responsável”. Alguns críticos chegaram a classificar o movimento como uma espécie de “Vatican-washing”, em referência ao termo usado quando empresas buscam legitimidade associando suas marcas a instituições respeitadas.
Um exemplo é a pesquisadora associada à Universidade Stanford Timnit Gebru. Em publicação no LinkedIn, ela afirmou que a Igreja estava “embarcando na onda dos empresários que estão prestes a ganhar bilhões com seus IPOs”. Também criticou o Vaticano por não questionar a Anthropic por “roubar dados, explorar o trabalho, destruir o meio ambiente, enganar a sociedade com designs antropomórficos e mentir sobre as ‘capacidades’ dos produtos”.
Outros especialistas, como Brian Patrick Green, diretor do Markkula Center for Applied Ethics, da Universidade de Santa Clara, avaliam que a aproximação com líderes religiosos também traz riscos para as empresas. Segundo eles, caso o diálogo seja percebido como uma estratégia de marketing ou de reputação, e não como um compromisso genuíno, o efeito pode ser negativo para a própria companhia.
Os críticos argumentam que, embora a Anthropic defenda regulamentação e segurança, ela continua participando da corrida global para construir modelos cada vez mais poderosos e lucrativos.
O que está realmente em jogo
Por trás da suspensão do Fable 5 e do Mythos 5 está uma disputa muito maior.
À medida que a inteligência artificial se torna mais avançada, cresce a preocupação de governos com espionagem, cibersegurança, desinformação, automação militar e impactos econômicos.
Ao mesmo tempo, empresas como a Anthropic argumentam que decisões sobre o futuro da tecnologia precisam ser transparentes e baseadas em evidências técnicas claras.
O episódio mostra que a corrida da inteligência artificial deixou de ser apenas uma questão de inovação tecnológica.
Ela se transformou em uma disputa geopolítica, econômica e até moral sobre quem terá o poder de definir as regras da tecnologia mais influente do século XXI.
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