- Su filindeu é a massa mais rara da Itália, feita em Nuoro, na Sardenha, conhecida como “fios de Deus.
- Poucas pessoas ainda sabem preparar e Paola Abraini atua como guardiã da tradição, ensinando a técnica.
- O processo resulta em 256 fios esticados sobre uma rede triangular chamada fundo, formando um padrão que remete à Santíssima Trindade.
- O segredo está no sal que dá elasticidade à massa; empresas como Barilla não conseguiram reproduzir a técnica com precisão.
- Por séculos servida apenas em San Francesco di Lula, hoje a massa é oferecida em alguns restaurantes da ilha, ainda que a experiência dependa da peregrinação.
O prato mais raro da pasta no mundo está escondido nas montanhas do norte da Sardenha. Su filindeu, ou “fios de Deus”, é a forma mais enigmática entre as mais de 350 shapes reconhecidas da Itália e depende de uma tradição de centenas de anos para existir.
Pouco mais de uma dúzia de pessoas ainda domina a técnica de ensinar, preparar e secar a massa que, quando esticada à mão, resulta em 256 fios finíssimos dispostos em uma malha triangular sobre um quadro de secagem chamado fundo. O objetivo é remeter à Santíssima Trindade.
A artesanalidade é tão exigente que o aprendizado depende do toque, não apenas de instruções. A preparação envolve sal que, ao ser incorporado, fortalece a rede de glúten, conferindo elasticidade necessária para o estiramento extremo.
A mestria vem sendo transmitida principalmente por mulheres da região de Nuoro, em difícil passagem de geração. Paola Abraini é uma das poucas que ainda conserva o saber e atua como mentora para quem busca evitar o esquecimento.
Historicamente, a receita circulou por um único filão de matrimônios locais, com a tradição passando de mãe para filha. Abraini aprendeu aos 16 anos com a sogra, em um legado que resistiu às mudanças do tempo.
Tecnicamente, cada passagem de massa com o mattarello, o rolo tradicional, reduz a largura pela metade e aumenta o número de fios, repetindo o processo oito vezes para chegar aos 256 fios. O sal é ingrediente essencial para a textura.
Essa specialidade não é simples de duplicar fora de Nuoro. Mesmo grandes fabricantes de massa não conseguiram reproduzir o método único de su filindeu, que depende de leitura tátil e ajustes finos.
Há décadas, a prática era restrita ao santuário de San Francesco di Lula, mas recentemente alguns restaurantes da ilha passaram a servi-la. Ainda assim, a experiência de comer após uma trilha noturna representa o que diferencia o prato.
Para muitos peregrinos, a motivação varia entre fé, orgulho, lembrança de alguém querido, exercício físico e, acima de tudo, o prazer de saborear a massa. O consenso é que o resultado está no conjunto da experiência.
Mesmo sendo considerada a melhor de suas versões, o sabor não está apenas na receita: a prática, o entorno montanhoso e a jornada de quem a prepara moldam o que se prova ao final. Su filindeu continua palco de contexto e dedicação.
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