- Susanna Clarke descreve uma crise súbita em outubro de 2016, após 11 anos com doença crônica, que inclui impossibilidade de comer, tremores e medo intenso.
- Ela relembra Virginia Woolf e a ideia de que a linguagem falha ao descrever dor; a sensação de “estar prestes a cair do mundo” serve como referência para entender a experiência de doença.
- A autora explora o papel da narrativa para lidar com doenças crônicas, destacando que uma história pode trazer sensação de racionalidade, controle ou apenas explicação para o sofrimento.
- Em contraste com Woolf, Clarke vê o universo como repleto de beleza em Piranesi, sugerindo que a ficção pode revelar uma ligação profunda entre criação e existência.
- O texto menciona abordagens terapêuticas recentes que trabalham com narrativa — como reprocessamento de dor e rastreamento somático — e a ideia de que mudar a narrativa pode ajudar a sentir-se seguro.
Susanna Clarke descreve um período de doença que durou 11 anos e uma crise aguda em outubro de 2016, levando-a ao hospital. A dificuldade foi não conseguir comer, tremores intensos e ansiedade noturna.
No hospital, um gastroentrologista pediu uma descrição do que sentia. Ela respondeu de forma direta: estava muito doente, mas não encontrou palavras que descrevessem a plenitude da dor física e emocional.
A autora cita Virginia Woolf, autora de On Being Ill, para mostrar como a linguagem pode falhar diante da dor. Clarke tentava explicar a sensação de estar prestes a “cair do mundo”.
Contexto literário
Ela compara Woolf com a própria leitura da doença, lembrando a ideia de que o mundo pode parecer indiferente diante da beleza e do sofrimento. A leitura dos textos transforma a experiência.
Para Clarke, a doença revela que a realidade continua a existir, mesmo quando ninguém está observando. Em Piranesi, a beleza do mundo é grande e, para o protagonista, um chamado à curiosidade.
A autora também comenta que a doença pode dar liberdade intelectual. Leitores que passam por enfermidades passam a ler, pensar e questionar de modo diferente, sem se prender a opiniões alheias.
Narrativa como ferramenta
Clarke aponta que a narrativa pode tornar a doença compreensível e oferecer algum controle, ainda que ilusório. Doenças crônicas não têm cura rápida, apenas histórias que ajudam a entender o que ocorre.
Ela ilustra que é possível construir várias narrativas para explicar a doença, desde causas biológicas até eventos da carreira doentia, sem atribuir culpa a terceiros.
Caminhos terapêuticos
O texto envolve terapias recentes que trabalham com narrativa, como pain reprocessing e somatic tracking, além da teoria polivagal. Elas sugerem que o cérebro poderia interpretar o perigo de modos diferentes.
A ideia central é substituír uma visão de mundo cheia de risco por uma narrativa que indique segurança no presente. O objetivo é orientar o leitor a encontrar caminhos de resposta.
Conclusão
A autora reforça que a história pessoal pode orientar o percurso de recuperação, ao retratar onde começou a doença e como seguir adiante. O ensaio original foi encomendado para o Charleston festival.
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