Um novo relatório da UNAIDS, apresentado nesta segunda-feira (27), alerta que o mundo pode enfrentar um ressurgimento da epidemia de HIV caso não haja uma retomada do financiamento internacional para o combate à doença.
Apesar de os avanços científicos terem levado aos menores índices de novas infecções e mortes relacionadas à AIDS em mais de 30 anos, a redução de recursos já afeta programas de prevenção, testagem e serviços comunitários, especialmente em países mais vulneráveis.
A agência das Nações Unidas afirma que, sem um compromisso político e financeiro renovado, a meta de eliminar a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 ficará ainda mais distante.
Os avanços científicos contra o HIV nunca foram tão promissores, mas o mundo pode voltar a registrar um avanço da epidemia. O alerta está no relatório “United to End AIDS”, divulgado nesta segunda-feira (27).
O documento foi apresentado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.
🔎 O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) é um vírus que ataca o sistema imunológico, responsável por proteger o corpo contra doenças. Se não tratado, o HIV pode evoluir para a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), que é o estágio mais avançado da infecção.
Segundo o relatório, a combinação de cortes no financiamento internacional, o aumento da dívida de países mais pobres, crises humanitárias, surtos de outras doenças e retrocessos nos direitos humanos, incluindo o avanço de leis que discriminam pessoas LGBTQIA+ e restringem o acesso aos serviços de saúde.
Queda de 18% do financiamento
De acordo com a UNAIDS, o financiamento internacional para a resposta ao HIV caiu 18% em 2025, totalizando US$ 7,3 bilhões, o menor patamar em quase duas décadas.
Antes do retorno do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à Casa Branca, em janeiro de 2025, o país respondia por cerca de 75% do financiamento internacional destinado ao combate ao HIV. Logo após assumir o cargo, Trump determinou a suspensão temporária dos recursos para programas relacionados ao vírus. Embora parte das atividades essenciais tenha sido retomada dias depois, diversos programas de prevenção permaneceram reduzidos.
“A comunidade internacional entrou em um período de profunda turbulência política e financeira que ameaça décadas de conquistas duramente alcançadas na luta contra o HIV“, afirma o relatório. O documento alerta ainda que, “sem um compromisso renovado e ações concretas, o mundo corre o risco de um ressurgimento da epidemia de HIV”.
Apesar de os investimentos nacionais terem aumentado em alguns países, compensando parcialmente as perdas externas, os recursos totais destinados ao enfrentamento da doença recuaram 6% em 2025. A situação foi mais crítica em países que dependem fortemente da ajuda internacional, especialmente na África Subsaariana, região que concentra cerca de metade das novas infecções por HIV no mundo.
Dados de Camarões, Nigéria e Zâmbia apontam redução superior a 50% no número de pessoas que recebem a profilaxia pré-exposição (PrEP). Em uma análise de 62 países, a UNAIDS identificou queda de 38% no número de usuários da estratégia de prevenção entre 2024 e 2025. Também houve redução de 93% nos recursos para programas de distribuição de preservativos e de 80% no financiamento de ações voltadas à ampliação do acesso à prevenção.
Segundo o relatório, as interrupções no financiamento afetaram diretamente a prevenção, a testagem e os serviços comunitários, considerados fundamentais para alcançar as populações mais vulneráveis ao vírus. A agência alerta que muitas dessas organizações, responsáveis por apoiar o tratamento e combater o estigma, correm risco de interromper suas atividades devido à redução dos recursos internacionais.
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Avanços em destaque
Mesmo diante desse cenário, os indicadores globais seguem mostrando avanços importantes. Em 2025, cerca de 1,2 milhão de pessoas adquiriram o HIV, enquanto as mortes relacionadas à AIDS caíram para 570 mil, os menores números registrados em mais de 30 anos. Desde 2010, as novas infecções diminuíram 43% e as mortes foram reduzidas em 57%.
Ainda assim, a UNAIDS reforça que o mundo não está no caminho para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030, como previa a meta global.
Para a agência, restaurar a solidariedade internacional, ampliar o financiamento sustentável e fortalecer os sistemas nacionais de saúde serão medidas decisivas para impedir que a epidemia volte a crescer e para manter viva a meta de eliminar a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.
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