A família Lundgren transformou a Pernambucanas em um império do Nordeste, começando com a importação de pólvora e passando pelo têxtil até chegar ao varejo. O grupo, criado por um imigrante sueco, alcançou cerca de 400 lojas nas décadas de 1960 e 1970, mas enfrentou crises que se projetam até hoje.
Anita Harley, controladora da Pernambucanas e principal executiva por décadas, voltou aos holofotes com a série O Testamento, da Globoplay. Ela liderou o grupo até sofrer um AVC há dez anos e, desde 2016, está incomunicável em um quarto do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. A curatela envolve disputas que atingem sua sucessão.
A narrativa acompanha a evolução do grupo, que também administra a empresa de soluções financeiras Pefisa. Com o atual estatuto, a imprensa acompanha o futuro da governança e da marca, diante de um patrimônio estimado no entorno de 2 bilhões de reais e de uma reputação marcada pela longa história familiar.
Da Suécia ao Nordeste do Brasil
A história começa com Herman Lundgren, que chegou ao Recife em 1855 sem saber Português. Ele se tornou despachante aduaneiro, representante consular e empresário, iniciando a exportação de produtos nordestinos. Em 1866, fundou a Pernambuco Powder Factory, abrindo caminho para a fortuna na pólvora.
A virada para o têxtil ocorreu em 1904, com a aquisição da fábrica de Paulista, em Olinda. A Companhia de Tecidos Paulista (CTP) reergueu o negócio com lucros da pólvora e criou um polo industrial no Nordeste, ampliando a presença da família. Em 1908, nasceu a loja própria para tecidos, o embrião das Casas Pernambucanas.
A origem das Casas Pernambucanas
Sob a liderança de Arthur e Frederico Lundgren, a varejista introduziu preços fixos e a marca Olho, com garantia de durabilidade de cores. A expansão foi rápida, chegando a 200 lojas no Nordeste na década de 1920. A entrada no Sudeste, com a primeira unidade em São Paulo, consolidou a rede.
O nome Casas Pernambucanas surgiu com o crescimento. Nos anos 1930, um manual de procedimentos orientou a padronização das lojas, incluindo foco na localização comercial e na satisfação do cliente. A rede tornou-se a maior do Brasil nas décadas de 1940 e 1950, com mais de 400 lojas.
Construção de vilas operárias
Em 1924, a família criou a Companhia de Tecidos Rio Tinto, na Paraíba, acompanhada de vilas operárias para os trabalhadores. O objetivo era controlar ambiente, mão de obra e tempo livre. O modelo gerou tensões sociais e trabalhistas que perduram na memória histórica da região.
A política de moradia está ligada a terrenos da empresa, com desapropriação parcial ocorrida em 2022, pela Paraíba, preservando, ainda hoje, a presença da família na cidade. O legado imobiliário persiste como parte relevante da história regional.
A era de Arthur Lundgren e o “espião nazista”
Arthur Lundgren comandou a Pernambucanas por décadas, chegando a ser deputado e prefeito de Rio Tinto. Em época de guerra, houve acusações de associação com propaganda nazista. Pesquisas indicam que a região abrigava atividades ligadas a terceiros de origem alemã, associadas ao consulado da Alemanha.
Pesquisadores divergem quanto à prova de envolvimento direto da família com o nazismo. A Pernambucanas negou vínculos com narrativas que não se refiram à atuação empresarial. A empresa ressaltou governança independente e compromisso com ética, transparência e inclusão.
Situação atual das Pernambucanas
No ranking de 2024 das 300 maiores do varejo, a Pernambucanas ficou em 45º, com 6,1 bilhões de reais de receita. A margem EBTIDA caiu a 1,8% em 2024, ante 9,9% em 2023, comparando-se a Magalu, que teve receita significativamente maior. Em 2025, houve otimização de operações e foco no vestuário.
Em 2026, a empresa contabilizou 11 mil funcionários e 470 lojas próprias em 15 estados mais o Distrito Federal. A gestão atual busca ampliar a atuação com foco em omnichannel, redução de dívida e maior participação de roupas no mix de produtos.
Governança e liderança
Após o acidente de Anita, Sergio Borriello assumiu como CEO, promovendo expansão e atualização tecnológica. Em seguida, o então comando passou a Ricardo Doebeli, que trouxe uma diretoria de Transformação para estimular intraempreendedorismo. A diretoria avalia propostas para implementação futura, dentro de uma governança ainda em transição.
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