Nos últimos anos, governos, empresas e investidores passaram a enxergar a transição para uma economia de baixo carbono como dinamizadora de competitividade e inovação, não apenas como questão ambiental. A pauta climática ganhou peso em decisões de investimento, política industrial e estratégias corporativas.
Por outro lado, a biodiversidade ainda não seguiu esse caminho, o que aumenta custos de modo direto. Em 2023, fluxos financeiros com impacto negativo sobre a natureza somaram 7,3 trilhões de dólares, sendo 4,9 trilhões privados e 2,4 trilhões em subsídios públicos prejudiciais ao meio ambiente.
A perda de biodiversidade compromete produção de alimentos, disponibilidade de água e estabilidade econômica. Em um cenário de eventos climáticos extremos, manter a biodiversidade integrada às decisões econômicas tornou-se indispensável para sistemas produtivos.
Em 2022, na COP15, 196 países aprovaram o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, com metas para deter e reverter a perda até 2030. No Dia Internacional da Biodiversidade, próximo da COP17, a conclusão dominante é a implementação, não apenas compromissos.
A bioeconomia surge como caminho concreto, associando conservação a desenvolvimento econômico. A ideia é gerar valor a partir da biodiversidade, impulsionar inovação, criar cadeias produtivas e reduzir dependência de fósseis. A natureza em pé passa a valer mais que a floresta derrubada.
Restauração como investimento: o Brasil e a aposta na regeneração
A restauração de ecossistemas é uma das alavancas mais diretas da agenda da biodiversidade. Além de favorecer espécies, reforça água, solo, resiliência climática e segurança alimentar. O Brasil tem condições para liderar esse movimento, com o Planaveg prevendo recuperar pelo menos 12 milhões de hectares até 2030.
Essa mobilização já acontece: empresas como a re.green demonstram que restauração atrai capital e cria valor econômico além do mercado de carbono, com florestas produtivas gerando alimentos, biomateriais e serviços ambientais. Cadeias produtivas diversificadas fortalecem a resiliência territorial.
Agricultora que produz com a floresta em pé
A agricultura é fator-chave na perda de biodiversidade, mas depende da preservação para continuidade produtiva. Secas afetam culturas estratégicas como soja, café, cacau e castanha-do-pará. Estudos indicam que 80% da biodiversidade remanescente mundial está em territórios indígenas, conectando conservação a infraestrutura produtiva.
Sistemas biodiversos favorecem polinização, controle natural de pragas e saúde do solo. Biocombustíveis, agroflorestas e práticas regenerativas mostram como a natureza pode sustentar produtividade, reduzindo insumos. O mercado de bioinsumos no Brasil atingiu R$ 6,2 bilhões em 2025, com aumento de 28% na área tratada.
Pessoas em primeiro lugar
A implementação do Marco Global da Biodiversidade depende de quem vive e produz onde a biodiversidade está concentrada. Povos indígenas e comunidades tradicionais guardam conhecimentos e práticas produtivas profundamente conectadas aos ciclos naturais, com cerca de 80% da biodiversidade remanescente em seus territórios.
Proteger a biodiversidade passa pelo fortalecimento de direitos territoriais, apoio a economias locais e repartição justa de benefícios. O Protocolo de Nagoya orienta a repartição de benefícios pelo uso de recursos genéticos e conhecimentos tradicionais.
O marco estabelece um roteiro para implementação efetiva, exigindo correção de incentivos que favorecem a degradação e a canalização de capital, inovação e políticas públicas para modelos que gerem valor a partir da natureza. A participação de comunidades locais é essencial para o sucesso das estratégias.
A ideia é construir uma economia em que comunidades liderem o desenvolvimento e recebam os benefícios da biodiversidade. A biodiversidade, dizem especialistas, agrega lições de gestão de recursos, adaptação a mudanças e resiliência que podem orientar novas visões de desenvolvimento.
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