A eclosão da guerra entre Irã e ações envolvendo o petróleo provocou reflexos relevantes nos fundos multimercados brasileiros no fim de fevereiro. Com posições parecidas, a dança foi quase sincronizada, priorizando ganhos com Selic em queda, Ibovespa em valorização e dólar estável.
O choque veio quando o petróleo subiu e pressionou a inflação, empurrando os juros futuros para cima e levando a Bolsa a devolver ganhos do início do ano. O sell-off coincidiu com um stop-loss elevado, gerando o pior drawdown desde a pandemia, segundo estudo de André Leite, CIO da TAG Investimentos.
Leite apontou que a maioria dos multimercados ficou fortemente alavancada em DI, em uma tentativa de compensar resultados ruins dos anos anteriores. A leitura é de que há pouca diversificação real entre fundos, já que muitos dependem de mesmas posições e fatores, o que reduz a eficiência do hedge contra o risco Brasil.
Desempenho relativo entre kits e IHFA
A análise evidencia o fenômeno conhecido como crowded trade, em que cotistas pagam caro por estratégias facilmente replicáveis por fundos passivos. Em simulação, montar uma carteira tipo KIT Brasil com ETFs superou, em retornos, o IHFA em períodos recentes, demonstrando menor custo e maior diversificação prática.
Nos últimos 48 meses, o KIT Brasil com ETFs rendeu 47%, ante 43% do IHFA; o CDI registrou 63% no mesmo intervalo. A carteira simulada envolve renda fixa pré e pós, câmbio em dólar e exposições em Ibovespa e S&P 500, todos em moeda local.
Nos 12 meses mais recentes, o IHFA ficou 11,2% frente a 10,7% do kit. O CDI, por sua vez, teve 14,8% de ganho. Em uma janela de longo prazo (jan 2015 a abr 2026), o kit Brasil acumulou 208%, contra 203% do IHFA e 191% do CDI.
Custos, benefícios e o papel dos ETFs
É incomum que multimercados superem o CDI de forma estável, ainda mais quando considerados impostos e taxas. Os fundos costumam cobrar cerca de 2% de administração e 20% de performance sobre o ganho acima do CDI, elevando o custo efetivo entre 2,5% e 4% ao ano.
Por outro lado, ETFs apresentam custos muito menores, entre 0,2% e 0,35% ao ano. Segundo Leite, a indústria vende a ideia de descorrelação e hedges que não se verificam na prática, especialmente quando a base de investidores paga pela alavancagem e pela gestão ativa.
A visão dele é de que apenas fundos macro com neutralidade de risco Brasil ofereceriam convexoidade que ETFs não replicam. No entanto, esse tipo de fundo é minoritário dentro do IHFA, e a maioria entrega apenas beta ao investidor.
Perspectivas para o setor
A oscilação diária do índice de multimercados está cada vez mais associada a Bolsa, câmbio e juros. Nos últimos quatro anos, retornos baixos têm levado a saques frequentes e a um debate sobre a relevância da indústria diante dos ETFs e das gestoras quantitativas.
Leite vê a necessidade de evolução estrutural para manter relevância, recomendando que gestores criem valor em frentes não replicáveis por ETFs. A sugestão é buscar modelos de atuação mais integrados com o ecossistema global, como hedge funds, para ampliar opções de estruturação e governança.
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