O setor de bebidas espirituosas enfrenta um dilema ecológico: manter a identidade marcante das garrafas enquanto reduz o impacto ambiental. De um lado, marcas investem em formatos icônicos e embalagens luxuosas. Do outro, cresce a pressão por leveza, reciclagem e reúso.
A comparação com o vinho evidencia o desafio de padronizar formatos. Enquanto o vinho pode usar dois padrões quase universais, as bebidas espirituosas exibem centenas de formatos distintos, muitos patenteados por marcas como Bulleit, Hendrick’s, Johnnie Walker, Rémy Martin, Glenfiddich e Rhum Clément. A standardização, essencial para o reúso, parece difícil.
A produção de vidro consome muita energia: fornalhas acima de 1500°C, com 75-80% de gás. O aumento recente do preço do gás na Europa eleva o custo das garrafas, principalmente em lotes menores de prestige. Desde 2026, o preço do gás duplicou no mercado TTF, impulsionado por tensões geopolíticas.
Os verreiros enfrentam impacto direto no custo de produção. O gás representa grande parcela da energia e pesa mais nos lotes de alto valor, onde o custo fixo da fornalha é diluído em poucas unidades. Garrafas mais pesadas geram mais emissões e consumo energético.
No segmento prestige, o efeito ambiental é mais intenso, com garrafas pesadas, coffrets de madeira, metal e papel grosso. Mesmo assim, há avanços: a marca Clément reduziu a garrafa de 825 g para 650 g, com 25% de calcin reciclado. A substituição de parte das matérias-primas por vidro reciclado reduz energia e CO2 por cada tranche de 10% de calcin.
Além da leveza, o reúso aparece como próxima fronteira. A adoção exige garrafas padronizadas, redes de coleta e lavadores autorizados. A rede Adelphe coordena uma coalizão com Circul’R, Eco Impact, Réseau Loop e a Federação dos Spiritueux para explorar soluções sem perder a identidade de marca.
A demanda do consumidor também evolui. Aproximadamente 35% dos compradores de bebidas espirituosas consideram selos ambientais, segundo barômetro de 2024. Estudos indicam confiança maior em marcas sustentáveis e disposição a mudar hábitos para reduzir impactos.
Por outro lado, a embalagem continua ser fator de compra, especialmente no segmento premium. O packaging influencia 92% dos compradores premium, e 67% consideram a originalidade da garrafa relevante. Transparência sobre processos de fabricação é desejada por 39%.
Essas dinâmicas mostram equilíbrio entre estética e responsabilidade. Inovações já aparecem, como tampa de papel em Absolut e garrafas de vidro mais leves e reutilizáveis em marcas como Belle Gnôle. A associação entre inovação e desejo de consumo não é mutuamente exclusiva.
No aspecto regulatório, novas regras acentuam a pressão. A lei AGEC impõe 10% de reúso até 2027 e exige relatório anual. A UE, com o Packaging and Packaging Waste Regulation, mira embalar apenas itens recicláveis até 2030. As empresas devem traçar estratégias de eco-concepção com redução, reúso e reciclabilidade.
Medhi Besbes, da Adelphe, destaca que o marco regulatório pode acelerar a transição para o reúso, desde que haja caminhos que preservem a identidade das marcas. A prioridade é avançar com soluções viáveis, equilibrando sustentabilidade e apelo de marca.
Entre na conversa da comunidade