O Brasil segue diante de um paradoxo logístico: há produção recorde, especialmente no agronegócio, e, ao mesmo tempo, uma malha ferrovia insuficiente para escoar a carga. A reportagem analisa os números e os impactos desse desequilíbrio na matriz de transportes.
A pesquisa aponta que o transporte ferroviário tem alta capacidade por comboio, com 70 a 130 vagões e 70 a 120 toneladas por vagão. Em comparação, o transporte rodoviário tende a carregar menos por viagem, aumentando a dependência de caminhões.
A análise utiliza dados do Esalq-Log e registra que 75% do volume ferroviário é minério de ferro, enquanto o agronegócio representa 20% e grãos apenas 10%. Os contêineres respondem por 1,2% do movimento total.
Concentração de cargas
Entre 2010 e 2024, o volume de grãos em trem cresceu de 23 milhões para pouco mais de 50 milhões de toneladas, porém o câmbio não foi suficiente para reduzir a dependência de caminhões. O transporte de soja para exportação caiu de 47% para 33,4% via ferrovia, enquanto o uso de caminhões subiu para 47%.
No mercado doméstico, quase 97% dos grãos são movimentados por caminhão, evidenciando a limitação da malha atual e a fragilidade da matriz logística nacional.
Desvios de planejamento e cenários futuros
Planos nacionais apontam para maior participação de modais de longo curso, mas o Brasil permanece com linhas isoladas em vez de uma rede integrada. A consequência é maior custo econômico, social e ambiental por não ampliar a infraestrutura ferroviária.
Pesquisas do Esalq-Log simulam cenários até 2035 e 2050. Economicamente, a expansão geraria fretes mais baixos e PIB adicional entre 13,6 e 74,7 bilhões até 2035, e entre 41,6 e 232,3 bilhões até 2050. A cada R$ 1 investido, o retorno varia entre 0,60 e 6,00, conforme o cenário.
Do ponto de vista ambiental, a migração de carga para a ferrovia evitaria entre 2,5 e 8,3 milhões de toneladas de CO₂ por ano a partir de 2035, reduzindo entre 2,7% e 9,2% as emissões do transporte de cargas.
Socialmente, a ausência de ferrovia penaliza municípios isolados e agricultores com margens menores, elevando o custo do alimento e limitando investimentos. A expansão ferroviária ampliaria o consumo real em camadas de menor renda.
Caminho a seguir
Os números sugerem que investir em ferrovia é essencial para reduzir custos, emissões e desigualdades regionais. A pergunta central não é se vale investir, mas como acelerar a implementação de uma rede integrada.
Se não houver atuação rápida, o cenário descrito tende a se repetir até 2035: maior volume de carga, trilhos insuficientes e emissões mantidas em patamares elevados.
Fonte: Esalq-Log e dados complementares de referência. Este texto reescreve o conteúdo para o Portal Tela, preservando a essência das informações do Valor Econômico, edição de 26/6/2026.
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