Natércia Pontes, escritora cearense, lança o livro Vida Doçura, que mergulha no luto profundo pela morte da mãe. A autora revela que o processo de escrita foi uma maneira de expurgar um trauma antigo, ainda presente desde a infância.
A obra apresenta Jocasta, personagem que representa a poeta na meia-idade e carrega a lembrança da mãe que se matou quando Natércia tinha nove anos. A narrativa entrelaça memória familiar com a ficção para discutir o peso desse suicídio na linhagem da família.
Vida Doçura funciona como segundo volume da Trilogia da Desordem, articulando o relato de Jocasta com a rotina de Jovana, influenciadora digital que vive uma vida doméstica idealizada. A relação entre as duas protagonistas é central para o enredo.
Entre trauma e ficção
A narrativa contrasta Jocasta, que vive em uma quitinete com o gato Argos Panoptes, com Jovana, figura idealizada de redes sociais. A autora descreve a diferença entre o mundo privado de Jocasta e o universo rosa da influencer.
A obra utiliza a escrita-colagem para combinar memórias, textos antigos e referências culturais. O resultado aponta para a diferença entre classe social, percepção de maternidade e a pressão da presença pública nas redes.
A protagonista Jocasta questiona a própria existência diante de espelhos que refletem identidades diversas, mostrando a tensão entre lembrança de infância e a vida adulta sob o olhar de terceiros.
Processo criativo
Natércia aponta influências de rock dos anos 1990 e de biografias de artistas como Kurt Cobain, além de referências teatrais. A autora diz que o livro nasceu para organizar a própria vida interior após anos de experimentar dores públicas e privadas.
Segundo a autora, a escrita de Vida Doçura também traz sinais de uma tentativa de encarar o suicídio da mãe como um marco que se repete na família. O livro é, para Natércia, um meio de fechar esse ciclo.
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