No imaginário popular, a ideia de uma exposição de arte costuma remeter a quadros, silêncio e à contemplação atenta do público. Adam Milner, porém, acrescenta um tempero a mais a esse conceito. A exposição Dada, em São Paulo, no Yehudi Hollander Pappi, reúne miniaturas, fotos em polaroid sem moldura na parede e outros artefatos que […]
No imaginário popular, a ideia de uma exposição de arte costuma remeter a quadros, silêncio e à contemplação atenta do público. Adam Milner, porém, acrescenta um tempero a mais a esse conceito.
A exposição Dada, em São Paulo, no Yehudi Hollander Pappi, reúne miniaturas, fotos em polaroid sem moldura na parede e outros artefatos que remetem à nostalgia do expositor. Mas antes mesmo de o público entrar na mostra, um detalhe chama a atenção: uma loja de antiguidades.
Na entrada da pequena casa na região dos Jardins, a fachada da exposição é ocupada pela Rota das Coleções, uma loja de artigos variados que vende de tudo, de caixas de fósforo a figurinhas e latinhas. No fim, a proposta do comércio dialoga perfeitamente com o conceito da mostra.
Nostalgia, coleções e dadaísmo
A exposição de Adam Milner se chama Dada, em alusão ao dadaísmo, vanguarda artística que surgiu como protesto à Primeira Guerra Mundial. O espaço e os objetos conversam com as obras de Marcel Duchamp, um dos principais nomes do movimento, conhecido por elevar itens comuns ao status de arte.
Adam segue uma linha de pensamento influenciada por Duchamp ao transformar objetos comuns e memórias de um cotidiano banal em arte e ponto de partida para reflexão. A mostra coloca em debate, por exemplo, a ideia de antiguidade e quem define o que vira lixo, o que é guardado com cuidado e quais critérios, afinal, determinam o valor de uma peça.
Uma reflexão que é diretamente ligada com a loja de antiguidades na entrada, usada para ampliar, de forma mais interativa e até lúdica, a ideia que Adam quer reforçar.
Mais do que os produtos, o próprio lugar onde eles aparecem também importa: uma loja. O ambiente entra na narrativa ao tocar na comercialização da arte e até das memórias, retomando a pergunta central da mostra sobre quem atribui valor às coisas.
As obras também têm um forte tom nostálgico ao reunir fotos de arquivo pessoal do artista e, sobretudo, de seu pai, com coleções e objetos feitos por ele, como peças produzidas a partir de solda.
A nostalgia e a banalidade de muitos itens expostos servem como ponto de partida para mostrar que o cotidiano também carrega histórias. É o caso de cartões e outros objetos resgatados entre Nova York e São Paulo.
O próprio espaço onde as obras aparecem também funciona como reflexão: um ambiente visto como vazio, branco e frio, em contraste com memórias quentes e coloridas, expostas quase como uma vitrine. O resultado cria um choque entre público e privado, mercado e posse.
Em meio à melancolia e à mercantilização da arte, volta o conceito de nostalgia já apresentado. Por trás das camadas de reflexão, crítica e das peças exibidas, há memórias que reaparecem, seja na curadoria, seja na composição das obras.
No fim, esse movimento levou Adam a fotografar coleções e a conversar com o pai sobre suas experiências, diálogo publicado na íntegra no site da Yehudi Hollander Pappi.
Em meio aos diferentes pontos de vista e reflexões, o dadaísmo funciona como o fio condutor da exposição. O movimento tinha como objetivo criticar a sociedade burguesa e a guerra, e também questionar o valor da arte, tema recorrente na mostra que incorpora metade do nome da vanguarda artística no título.
Rota das coleções: A vitrine de Dada
Como já indicado, a fachada da exposição não é vazia e fria como as paredes e o ambiente interno, mas aconchegante, desgastada e simpática. Ela funciona como contraponto ao restante do espaço, em uma dualidade estilo yin yang.
Originalmente instalada no Anhangabaú, no centro histórico de São Paulo, a Rota das Coleções vira quase uma parada obrigatória antes de ver o trabalho de Adam. A loja também pode atrair quem passa do lado de fora ou não costuma se interessar por exposições.
Alexandre, dono do local, recebe quem passa com simpatia e até perguntou o que eu colecionava, conversa essa que terminou com uma troca de contatos e um convite para eu voltar à sua loja e ver alguns CDs.
Essa simpatia, somada à recepção calorosa, é o que atravessa as fotos de Adam, por cima das reflexões e críticas que a mostra propõe.
Antes de tudo, o lugar é uma loja, e tudo naquele pequeno espaço está à venda. É difícil não abrir um sorriso, ou ao menos reagir com surpresa, diante de alguns itens. No meu caso, foram caixas de fósforo antigas.
Para quem gosta de futebol, o local é um prato cheio. Há latinhas de times, chaveiros espalhados em meio a uma caixa cheia deles, além de livros, figurinhas e álbuns. Um verdadeiro paraíso para colecionadores ou para qualquer apaixonado por futebol e por seu time.
Quem vive tomado pela nostalgia também tende a ver o lugar como um oásis em meio às fachadas minimalistas de outros comércios nos Jardins. Entre os achados, há ursinhos de pelúcia antigos e objetos de decoração.
No fim, a dualidade entre os dois ambientes atende a públicos diferentes. De um lado, quem busca a reflexão da exposição e as obras em si. De outro, quem entra pela loja de antiguidades, seja pela surpresa de encontrá-la no espaço, seja pela fachada convidativa.
Dada
Local: Galeria Yehudi Hollander-Pappi – Al. Lorena, 1295 – Jardins
Horário: Ter. a sex., 11h às 19h; sáb. 11h às 17h. Até 14 de março
Preço: Grátis
Classificação: Livre
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