- Emily Wilson tornou as traduções da Odisseia (2017) e da Ilíada (2023) referências em inglês, elogiadas pela concisão e fluidez, e agora apresenta um livro de ensaios sobre os desafios da tradução.
- O volume discute como o mundo antigo se cruza com o moderno, abordando autores clássicos e figuras contemporâneas, e questiona a ideia de que a antiguidade é apenas espelho de quem somos hoje.
- Em Sappho, Wilson prefere a leitura de Anne Carson e critica leituras que reduzem a poeta a uma figura feminista; discute também o papel dos homens poetas na moldagem da imagem de Sappho.
- A autora critica “gatekeeping” e defesa de elitismo clássico, defendendo uma postura aberta, que não romantiza nem desvaloriza o original, e celebra versões modernas que rompem com estereótipos.
- No ensaio mais longo, Wilson analisa a tradução da Odisseia, incluindo escolhas como manter a métrica do hexâmetro e a expressão de Odisséias como “homem complicado”, além de apresentar 20 regras em um manifesto para orientar novas traduções.
Emily Wilson lança Crossing the Wine Dark Sea, uma coletânea de ensaios sobre tradução e leitura dos clássicos. A obra acompanha seu status como tradutora de referência da Odisséia (2017) e da Ilíada (2023), elogiada pela concisão e fluidez. O conjunto revela sua filosofia de trabalho.
A autora descreve a infância conturbada pela paixão pelos gregos e pela poesia ao longo de décadas de estudo. Os ensaios repousam na ideia de que o mundo antigo dialoga com o contemporâneo, com foco na tradução como prática que revela continuidades entre guerras, crueldades e turbulência política.
Wilson revela o tom polêmico de sua crítica, atento aos limites da fidelidade e da legibilidade. Ela analisa erros de transcrições, releituras de clássicos e a forma como a cultura moderna molda a leitura de obras antigas, sem abrir mão da precisão textual.
Abordagem e temas
A coletânea aborda tradições como Aeschilo, Demóstenes, Catulo e Aristófanes, além de referências atuais. Entre referências não clássicas, aparecem Spike Lee, Erica Jong e Boris Johnson, para discutir o papel da cultura na tradução.
A autora também discute a figura de Sappho, ressaltando a fragmentariedade de sua poesia e as escolhas de outros tradutores. O ensaio avalia como o magnetismo da homossexualidade feminina é historicamente entrelaçado com as leituras modernas.
Wilson se posiciona entre os polos da domesticação e da expressão de estranheza. Ela observa que traduzir nem sempre significa invisibilidade, nem forçar o choque de culturas, buscando tornar o original legível sem diluir sua diferença.
Técnicas e exemplos de tradução
A autora defende que a métrica original seja respeitada, mantendo a cadência do hexâmetro dáctlico em Odisséia, pela escolha de pentâmetro iambico. Em trechos da Odisséia, discute a representação dos Sereios como criaturas cognitivamente tentadoras, não meramente sedutoras.
Outra discussão central envolve o dependence de adjetivos para Odysseu. A escolha de Wilson de descrever o herói como complexo, em vez de apenas astuto, é defendida com extensa justificativa em um capítulo que ocupa grande parte do livro.
Perspectivas sobre tradução contemporânea
A obra também aborda o debate entre domesticação e fidelidade ao original. Wilson defende que criar uma leitura mais acessível não equivale a colonizar o texto, nem reproduzir o internacionalismo de forma simplificada.
Ao longo do volume, a crítica se estende a traduções de outros autores, como Logue na obra War Music, elogiando o ritmo contemporâneo, apesar de falhas em alguns recursos de caracterização. A crítica é rigorosa, porém justa.
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