- Hunger and Thirst, de Claire Fuller, reúne realismo social e horror gótico, com uma narrativa que oscila entre o cotidiano e o macabro.
- A narradora Ursula, hoje adulta, é escultora; a história começa em 1987, quando tinha dezesseis anos, após uma infância marcada pela morte da mãe e pelo sistema de acolhimento.
- Na trama, Ursula se envolve com Sue, amiga de longa data, e com a família de Sue, em uma sequência que inclui uma seance e a recriação cinematográfica do assassinato dos Bloodworth.
- Um documentário chamado Dark Descent amplia o clima de suspense, com cenas que extrapolam o horror para expor falhas da sociedade britânica da época e a exploração midiática.
- O livro funde a investigação social sobre a era Thatcher com o horror sombrio das circunstâncias pessoais de Ursula, explorando temas de criação artística, traição e memórias que assombram.
Claire Fuller mistura realismo social e horror gótico em Hunger and Thirst, romance sombrio sobre uma escultora e um documentário de true crime. A obra oscila entre denúncias sociais, suspense assustador e imagens perturbadoras. A narrativa gira em torno de Ursula e encontros com dois cadáveres que moldam seu destino.
A protagonista, Ursula, tem uma história marcada pela violência e pela instabilidade. Filha de uma mãe itinerante que trabalhava como artista de rua, Ursula passou anos em abrigos e casas de proteção. Em 1987, aos 16 anos, está em um lar temporário junto a dependentes em recuperação e ex-prisioneiros.
No enredo, Sue surge como uma figura cativante, impulsionando Ursula para uma intimidade transformadora. Sue apresenta uma família ampla e acolhedora, mas o que parece caloroso guarda uma vertente obsessiva que evolui para comportamentos destrutivos. Um grupo de jovens, incluindo Vince e Raymond, acompanha as primeiras investidas de Ursula.
O romance alterna entre a vida cotidiana de uma cidade inglesa sob o governo Thatcher e o universo sombrio da casa chamada Underwood, palco de um possível crime. A casa acumula poeira, objetos esquecidos e segredos que se revelam aos poucos, alimentando a sensação de que o horror pode nascer do ambiente comum.
Paralelamente, Ursula descobre sua vocação artística ao esculpir em uma árvore morta, transformando tensão e violência em criação. As obras simulam cenas de impacto entre corpos, abrindo espaço para perguntas sobre pertencimento, peso do outro e a forma de conviver com o que se esconde.
A narrativa é fortalecida por um elemento documental que surge como contrapeso. Um filme produzido a partir de registros de crimes amplifica a sensação de voyeurismo e de exploração, questionando a ética de quem observa o sofrimento alheio. A dualidade entre cinema e horror realça a crítica social.
A trajetória de Ursula resulta em um clímax perturbador, quando segredos vêm à tona e são captados em câmera, possivelmente para a televisão. O objeto de violência transforma-se em instrumento, marcando uma virada decisiva na vida da protagonista e no tom da obra.
The Underwood funciona como metáfora de uma sociedade que confronta falhas no cuidado de personagens vulneráveis. A crítica social se mantém presente sem desvirtuar o foco do horror estético, oferecendo uma leitura que compõe análise de trauma, ética e memória coletiva.
Lançada como romance de impacto, Hunger and Thirst entrega uma visão crua das consequências de escolhas extremas. A intensidade emocional, aliada a cenas de claustrofobia e suspense, mantém o leitor atento ao desenrolar da história sem recorrer a simplificações.
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