O ACNUR lançou o Refugee Environmental Protection Fund (REP Fund), um modelo inédito que conecta restauração ambiental, créditos de carbono e proteção humanitária. O objetivo é reduzir a dependência de doações e ampliar a proteção de refugiados em contexto de crise climática. Uganda e Ruanda já avançam, com o Brasil na fila, começando por Roraima e a Terra Indígena São Marcos.
O fundo funciona por meio de projetos que associam restauração de terras a soluções de cozinha limpa, transformando ações ambientais em créditos de carbono certificados. O dinheiro vem de recursos públicos, filantrópicos e privados, com expectativa de gerar receita de longo prazo para sustentar as operações. A meta global é restaurar mais de 100 mil hectares e beneficiar cerca de 1 milhão de pessoas em dez anos.
A gestora do ACNUR, Pilar Pedrinelli, explica que o REP Fund une proteção, clima e financiamento de mercado em um único arcabouço, buscando soluções duradouras para contextos subfinanciados. A ideia é transformar ajuda emergencial em ações com retorno ambiental e social contínuo, fortalecendo comunidades vulneráveis.
Como funciona na prática
O REP Fund identifica desafios ambientais em áreas de acolhimento de refugiados, priorizando restauração ambiental e cozinhas limpas. Estudos de viabilidade jornalizam direitos sobre a terra, carbono e condições ambientais, para formar consórcios que executem os projetos com supervisão do ACNUR. Os créditos são verificados de forma independente e comercializados em mercados certificados.
O investimento inicial vem de fontes públicas, filantrópicas e privadas; com o tempo, a receita gerada pelos créditos sustenta a operação, ampliando o escopo dos projetos. Em Uganda e Ruanda, as atividades incluem mapeamento de áreas, engajamento com autoridades locais, viveiros, agroflorestas e planejamento de tecnologias de cozinha limpa, com foco na adoção contínua.
Brasil como palco de inovação
O Brasil foi escolhido por reunir ecossistemas relevantes, capacidade técnica e um setor privado apto a apoiar projetos em grande escala. O foco inicial está em Roraima, com a Terra Indígena São Marcos, onde convivem deslocamento de venezuelanos e povos indígenas. A participação respeita o Consentimento Livre, Prévio e Informado e a governança comunitária.
A gestão de benefícios terá acordos específicos por país e projeto, buscando transparência e participação de refugiados e comunidades de acolhida. A meta é garantir que receitas de carbono não apenas sejam verificadas, mas tragam benefícios diretos, como empregos, capacitação e energia limpa já na implementação.
Finanças, governança e parceiros
Espera-se atrair diferentes tipos de capital: governos e doadores para fases iniciais; bancos de desenvolvimento para apoio a longo prazo; e investidores de impacto para estruturar receitas. Empresas podem contribuir com conhecimento, tecnologia e, eventualmente, compras de créditos verificados, sempre alinhadas a metas científicas de descarbonização.
O Brasil poderá incluir refugiados e migrantes nas atividades, respeitando direitos territoriais e decisões comunitárias. A implementação no país depende de recursos financeiros e aprovação pelas comunidades locais, com início de operações previsto para 2027, caso haja mobilização adequada neste ano.
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