O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, convocou nesta segunda-feira (5) eleições antecipadas para 29 de novembro. O objetivo é ampliar o apoio de Sánchez no Parlamento, depois que os deputados rejeitaram, na semana passada, propostas para enfrentar a crise da habitação, que tem provocado protestos em todo o país.
A antecipação da votação é uma aposta de risco para Sánchez, cujo Partido Socialista (PSOE) aparece atrás em quase todas as pesquisas. Uma derrota significaria o fim de um dos últimos governos de esquerda da Europa, em um momento de avanço da extrema direita na região.
O cenário reflete um quadro mais amplo na Europa: a pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por mais gastos com defesa, as importações baratas da China, o custo mais alto dos empréstimos, o descontentamento dos jovens e o maior crescimento do apoio à extrema direita desde a década de 1930.
Sánchez, no entanto, já surpreendeu em outras ocasiões quem o dava como derrotado. Uma eleição neste momento pode permitir que ele aproveite a insatisfação com os preços da moradia no país.
“Precisamos nos mobilizar e conquistar uma maioria progressista muito maior no Parlamento, que nos permita superar os interesses estabelecidos, alcançar novos avanços sociais e continuar transformando a Espanha”, disse Sánchez em pronunciamento na televisão.
O primeiro-ministro reconheceu que não cumpriu todas as promessas de campanha, mas afirmou que vai lutar para que a Espanha continue sendo “um bastião de abertura, justiça social e responsabilidade ambiental”.
+Milhares protestam por moradia na Espanha após revés no Parlamento
Resposta da oposição
O líder do Partido Popular (PP), de oposição, Alberto Núñez Feijóo, prometeu nesta segunda-feira quase dobrar a construção de moradias no país, para 200 mil unidades por ano, e reduzir impostos caso chegue ao poder.
“A habitação tem sido o grande fracasso deste governo e deve ser o sucesso do próximo. Quando um primeiro-ministro está no cargo há oito anos, é muito difícil culpar os outros pelo que ele não conseguiu fazer”, disse Feijóo em um evento com pequenos empresários.
Sánchez ganhou projeção internacional ao defender pautas progressistas, do reconhecimento do Estado palestino à defesa das instituições multilaterais e ao enfrentamento dos “oligarcas da tecnologia”, enquanto uma série de escândalos enfraquecia a posição no país.
Os protestos recentes por moradia deram fôlego ao governo. As propostas rejeitadas na sexta-feira (2) por parlamentares de direita foram bem recebidas pelos manifestantes.
+Idosa de 87 anos poderá voltar para casa após despejo gerar protestos na Espanha
O que dizem as pesquisas?
As pesquisas indicam que o resultado mais provável é uma coalizão liderada pelo PP com o apoio do Vox, partido anti-imigração. Nesse cenário, um partido de extrema direita chegaria ao governo central pela primeira vez desde a redemocratização da Espanha, após a morte do ditador Francisco Franco, em 1975.
Embora nunca tenha obtido votos suficientes para formar um governo de maioria, Sánchez montou uma série de coalizões, com forças que vão da extrema esquerda à direita separatista, e está no poder há oito anos.
A fragmentação entre os parceiros impediu o governo de aprovar um orçamento, e poucas leis foram promulgadas desde 2023, embora a economia espanhola tenha registrado desempenho superior ao do restante do mundo desenvolvido.
Segundo a emissora estatal TVE e o jornal El País, Sánchez pretende aprovar os dois decretos sobre habitação rejeitados pelo Parlamento na semana passada por meio de um mecanismo legislativo pouco utilizado.
Quando a Câmara dos Deputados, de 350 membros, é dissolvida antes de uma eleição, uma comissão permanente de 68 deputados, além da presidente da Casa, continua funcionando para aprovar medidas de emergência. Nessa comissão, a maioria favorável aos decretos é de 35 a 34.
O líder do Vox, Santiago Abascal, afirmou que o resultado das eleições é imprevisível, apesar das pesquisas favoráveis à direita.
Entre na conversa da comunidade