As praias de Acra estão cobertas por roupas velhas, com o mar despejando um manto de calçados e plásticos misturados a camisas e calças. Essa situação é apenas uma fração do que flutua no oceano. Próximo à costa, montanhas de roupas usadas, provenientes da Europa, China e Estados Unidos, se acumulam, algumas pegando fogo e […]
As praias de Acra estão cobertas por roupas velhas, com o mar despejando um manto de calçados e plásticos misturados a camisas e calças. Essa situação é apenas uma fração do que flutua no oceano. Próximo à costa, montanhas de roupas usadas, provenientes da Europa, China e Estados Unidos, se acumulam, algumas pegando fogo e liberando fumaça tóxica. Gana é um exemplo extremo, mas países do Sul Global, como Paquistão, Quênia e Marrocos, também enfrentam problemas semelhantes, sendo parte do sistema de hiperprodução de roupas baratas que alimenta a “moda rápida”. Em Gana, essas roupas são chamadas de “roupas de homens brancos mortos”, e nações como Uganda, Ruanda e Zimbábue já restringiram a importação desse que consideram “neocolonialismo têxtil”.
Uma investigação de quase um ano realizada pelo EL PAÍS acompanhou o destino de quinze peças de roupa doadas, utilizando tecnologia de geolocalização. Os resultados mostraram que a maioria das roupas ainda circula ou está em armazéns, com metade delas tendo viajado para o exterior, deixando uma enorme pegada de carbono e alimentando redes comerciais opacas. Especialistas afirmam que a produção desenfreada de roupas baratas é a raiz do problema. Apesar das falhas do sistema atual, a doação de roupas continua sendo a opção mais sustentável. Na Espanha, as exportações de roupas usadas aumentaram devido à incapacidade do país de absorver o volume de peças compradas e descartadas.
O experimento envolveu a colocação de dispositivos de rastreamento em roupas doadas, que foram depositadas em contêineres de doação em várias localidades. Após onze meses, muitas peças ainda estavam em trânsito, com sete delas tendo viajado para a África e Ásia. Por exemplo, uma calça de pijama da Minnie Mouse, feita na China, passou por Madrid e foi parar em um armazém nos Emirados Árabes Unidos. Outro exemplo é uma jaqueta de toureiro, que viajou da Espanha para o Reino Unido, onde foi desfeita para a produção de novos tecidos. A quantidade de roupas que se movem globalmente é alarmante, com as sete peças rastreadas percorrendo mais de 65 mil km desde que foram descartadas.
Dados da União Europeia revelam que em 2022, 6,94 milhões de toneladas de têxteis foram descartadas, com 15% ficando em centros de reciclagem e o restante misturado ao lixo doméstico. As exportações de roupas usadas triplicaram nas últimas duas décadas, e 40% das exportações para a África acabam em aterros. A Agência Europeia do Ambiente destaca que a percepção pública de doações de roupas usadas como atos generosos não condiz com a realidade, onde a maioria das peças entra em mercados comerciais. A nova legislação da UE, que entrará em vigor em 2025, exigirá que os municípios instalem mais contêineres para coleta seletiva de têxteis, mas a eficácia dessas medidas depende de um aumento na capacidade de gerenciamento de resíduos.
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