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Voos de balão em Boituva ganham selo de segurança após crise no setor

Iniciativa surge após acidente em Santa Catarina causar queda na procura e busca mostrar que a atividade é segura quando feita com responsabilidade.

Ainda não tinha amanhecido quando os primeiros passageiros chegaram ao campo de voo em Boituva, no interior de São Paulo. O céu escuro, o frio da manhã e o som dos maçaricos formavam o cenário de uma das experiências turísticas mais procuradas da cidade: o voo de balão. Aos poucos, os balões coloridos começaram a […]

Ainda não tinha amanhecido quando os primeiros passageiros chegaram ao campo de voo em Boituva, no interior de São Paulo. O céu escuro, o frio da manhã e o som dos maçaricos formavam o cenário de uma das experiências turísticas mais procuradas da cidade: o voo de balão.

Aos poucos, os balões coloridos começaram a ganhar forma. Iluminadas pelo fogo, as estruturas cresceram diante dos visitantes enquanto pilotos e equipes faziam os últimos ajustes antes da decolagem. Com a primeira luz do dia no horizonte, as cestas deixaram o solo e Boituva passou a ser vista de cima.

Foi esse encanto que ajudou a cidade a se consolidar como uma das principais referências do balonismo turístico no Brasil. Mas, depois de acidentes recentes envolvendo balões, o setor passou a enfrentar um novo desafio: reconstruir a confiança dos turistas.

Selo busca reforçar a segurança

Às vésperas da alta temporada de inverno, período em que os passeios costumam ter maior procura, operadoras locais lançaram o Selo Decola Boituva, Voe Seguro de Balão.

A certificação estabelece padrões de qualidade, operação, atendimento e segurança para as empresas que atuam no município. A iniciativa reúne operadoras de balonismo, pilotos, fabricantes, hotéis, restaurantes e representantes ligados ao turismo local.

Juliana Dariva e Caroline Salgado

O objetivo é mostrar que Boituva continua preparada para receber turistas, mas com critérios mais claros para diferenciar empresas estruturadas de operadores que não seguem os mesmos padrões.

Acidente derrubou procura

O movimento acontece após a tragédia em Praia Grande, em Santa Catarina, onde um balão tripulado com 21 pessoas pegou fogo e caiu. O acidente deixou oito mortos e teve forte repercussão nacional e internacional.

Depois do caso, a procura por voos em Boituva caiu cerca de 90%, de acordo com representantes do setor.

O piloto Wilian Aguiar afirma que o impacto foi imediato.

Wilian Aguiar Piloto

“Depois do acidente no Sul do país, tivemos um impacto muito negativo no setor. Perdemos 90% de todo o faturamento dos voos de balão no período”, disse.

Para ele, a reação do público era esperada diante da gravidade do acidente. No entanto, a demora na retomada fez as empresas perceberem que precisavam agir em conjunto.

“A gente notou que precisava se unir para fortalecer a comunidade do balonismo. Formamos um grupo com 12 empresas, que são as maiores empresas de balonismo de Boituva, e criamos o Decola Boituva”, afirmou.

Projeto reúne 12 operadoras

Criado em fevereiro de 2026, o Projeto Decola Boituva reúne atualmente 12 operadoras. A proposta é organizar a cadeia turística do balonismo e tratar a atividade como uma operação profissional, com regras, fiscalização e padronização.

“O Decola Boituva é um projeto feito da união de algumas operadoras para um voo mais seguro. Ele trata o balonismo como profissional, e não recreativo”, explicou Aguiar.

A queda na procura não afetou apenas as empresas de voo. Em Boituva, o balonismo movimenta hotéis, restaurantes, bares, mercados e outros serviços ligados ao turismo de aventura.

“O balonismo representa uma parcela muito grande no faturamento de bares, restaurantes, hotéis e mercados. Por isso, esse é um trabalho em conjunto com toda a cidade”, afirmou o piloto.

Comissão avalia clima antes dos voos

Uma das principais mudanças do projeto é a criação de uma comissão meteorológica. O grupo reúne pilotos experientes para avaliar as condições climáticas antes dos voos.

A análise leva em conta vento, estabilidade do tempo e possibilidade de chuva. Para Caio Avelino, campeão brasileiro de balonismo e piloto há seis anos, esse controle é essencial.

Caio Avelino – campeão brasileiro de balonismo

“O mais importante, na minha visão, é a criação da comissão meteorológica. Hoje, em Boituva, oito pilotos fazem a análise do clima para garantir que será um dia seguro para voar”, afirmou.

O projeto também criou um sistema de bandeiras. A bandeira vermelha impede os voos. A amarela exige nova avaliação no campo antes da decisão final. A verde indica condições favoráveis para a operação.

“Com bandeira vermelha, ninguém voa. Com a amarela, a equipe vai ao campo para terminar de decidir. Com a verde, o voo está garantido”, explicou Aguiar.

Fiscalização tem apoio da Guarda Municipal

Em dias de bandeira vermelha, a Guarda Municipal de Boituva pode acompanhar os pontos de decolagem para verificar se algum operador tenta voar mesmo sem autorização.

Para Caio Avelino, a medida ajuda a evitar que empresas ou aventureiros realizem voos em condições inadequadas.

“Isso evita que aventureiros queiram fazer o voo em uma condição que não está segura. A qualidade da previsão climática é uma das partes mais importantes para garantir um voo seguro”, disse.

Certificação ajuda o turista a escolher

Imagem: Kaline Balduito – studio Fabrika de Memórias

Entre os pontos previstos pelo selo estão tempo mínimo de voo, manutenção rigorosa das aeronaves e dos equipamentos, critérios para formação de pilotos, atendimento qualificado e uma experiência mais padronizada do início ao fim.

As empresas participantes também devem atuar conforme as normas da Agência Nacional de Aviação Civil, a ANAC. Na prática, a certificação funciona como um indicativo de que a operação segue critérios definidos de segurança e estrutura.

Para Cristiano Almudim, representante do Decola Boituva, a organização é necessária para o crescimento do destino.

“Divulgar sem padronizar atrai público, mas não assegura qualidade nem segurança. Crescer sem critérios claros abre espaço para práticas inadequadas e compromete a evolução do setor”, afirmou.

Retomada depende de confiança

Apesar do impacto causado pelo acidente em Santa Catarina, os operadores defendem que o balonismo segue seguro quando feito por empresas regularizadas, com pilotos certificados e equipamentos revisados.

Aguiar afirma que Boituva realiza milhares de voos por ano sem histórico semelhante ao caso registrado no Sul.

“Temos, em média, mais de 4 mil voos de balão por ano em Boituva e nunca tivemos uma situação dessas. O balonismo é muito seguro”, declarou.

Com o Selo Decola Boituva, a cidade tenta entrar na alta temporada com uma mensagem clara ao turista: o voo de balão pode continuar sendo uma das experiências mais marcantes do turismo paulista, desde que feito com organização, fiscalização e responsabilidade.

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