O Vaticano viveu nesta segunda-feira (25) um dos momentos mais delicados e simbólicos de sua trajetória recente. Em sua primeira encíclica, o Papa Leão XIV reconheceu publicamente que a própria Santa Sé ajudou a legitimar a escravidão durante a era colonial e pediu perdão pelo papel desempenhado por antigos pontífices na autorização religiosa da submissão […]
O Vaticano viveu nesta segunda-feira (25) um dos momentos mais delicados e simbólicos de sua trajetória recente. Em sua primeira encíclica, o Papa Leão XIV reconheceu publicamente que a própria Santa Sé ajudou a legitimar a escravidão durante a era colonial e pediu perdão pelo papel desempenhado por antigos pontífices na autorização religiosa da submissão de povos considerados “infiéis”.
A declaração aparece na encíclica Magnifica Humanitas (“Magnífica Humanidade”), documento de mais de 40 mil palavras lançado oficialmente nesta segunda-feira no Vaticano.
Embora o texto seja centrado nos impactos éticos da inteligência artificial e na necessidade de proteger a dignidade humana na era digital, foi justamente o trecho sobre escravidão que provocou maior repercussão internacional.
“É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e humilhação suportados por tantos, em nítido contraste com sua dignidade imensurável como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor”, escreveu o pontífice. “Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”
Pela primeira vez na história da Igreja Católica, um papa reconhece explicitamente a responsabilidade institucional do próprio Vaticano na legitimação do sistema escravista.
Até então, outros pontífices haviam condenado o tráfico negreiro ou pedido perdão pela participação de cristãos na escravidão. Mas jamais um papa havia admitido de forma tão direta que a própria Santa Sé autorizou e legitimou estruturas coloniais que permitiram a escravização de populações não cristãs.
No documento, Leão XIV afirma que esse passado permanece como uma “ferida na memória cristã”.
De acordo com as palavras do Pontífice, “nem podemos negar ou minimizar o atraso com que tanto a sociedade quanto a Igreja passaram a denunciar o flagelo da escravidão”. Ele também reconhece que a Igreja levou séculos para admitir plenamente a incompatibilidade entre escravidão e dignidade humana.
“Levou dezoito séculos para que a incompatibilidade total entre escravidão e dignidade humana fosse reconhecida explicitamente”, afirmou.
Os documentos que ajudaram a sustentar a escravidão
O reconhecimento atinge diretamente documentos emitidos pelo Vaticano nos séculos XV e XVI, durante o avanço colonial europeu.
Um dos mais emblemáticos é a bula Dum Diversas, publicada em 1452 pelo papa Nicolau V. O documento autorizava oficialmente a Coroa portuguesa a “invadir, conquistar e subjugar” povos não cristãos na África e em outros territórios.
Mais do que isso: a bula permitia que essas populações fossem reduzidas à “escravidão perpétua”.
Três anos depois, outra bula papal, Romanus Pontifex, ampliou esse entendimento e ajudou a consolidar aquilo que ficaria conhecido historicamente como “Doutrina da Descoberta”.
O que foi a “Doutrina da Descoberta”
A chamada “Doutrina da Descoberta” foi um conjunto de interpretações jurídicas, políticas e religiosas usadas pelas potências europeias para justificar a ocupação colonial de territórios na África e nas Américas.
Na prática, a lógica era simples: terras ocupadas por povos não cristãos poderiam ser reivindicadas por reinos europeus com respaldo religioso.
As bulas papais emitidas naquele período davam legitimidade espiritual às conquistas coloniais e à expansão marítima europeia, fortalecendo a ideia de que populações consideradas “pagãs” ou “infiéis” poderiam ser dominadas, convertidas e, em alguns casos, escravizadas.
Décadas depois, essas ideias ajudariam a sustentar juridicamente processos de colonização, expulsão de povos originários e escravidão transatlântica.
Embora o Vaticano tenha repudiado formalmente a Doutrina da Descoberta em 2023, as antigas bulas nunca foram oficialmente anuladas.
O papa da inteligência artificial que decidiu revisitar o passado da Igreja
O pedido histórico de desculpas aparece dentro de uma encíclica cujo tema central é inteligência artificial.
Ao longo de mais de 40 mil palavras, o documento discute os impactos éticos da revolução digital, os riscos da automação e o crescimento do poder das grandes empresas de tecnologia.
Leão XIV estabelece um paralelo direto entre a escravidão colonial e aquilo que chama de “novas formas de escravidão” ligadas à economia digital.
O texto menciona condições precárias de trabalho associadas à extração de minerais raros usados na fabricação de chips e sistemas de inteligência artificial.
Segundo o pontífice, reconhecer os erros históricos da Igreja é essencial para impedir que novas estruturas de exploração humana sejam normalizadas no futuro.
“Precisamos evitar a necessidade de pedir perdão novamente por termos falhado em proteger a dignidade humana”, afirmou.
Papa tinha ancestrais negros
O pedido de desculpas também carrega um peso pessoal.
Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV possui ascendência ligada tanto a pessoas escravizadas quanto a proprietários de escravos. Pesquisas genealógicas apontam que parte significativa de seus ancestrais americanos era formada por negros identificados em registros históricos como escravizados, crioulos ou pessoas livres de cor.

A repercussão foi imediata.
A historiadora Shannen Dee Williams, especialista em história de católicos negros nos Estados Unidos, classificou o pronunciamento como “um passo monumental” rumo ao reconhecimento da verdade histórica.
Já o padre jesuíta Christopher Kellerman, pesquisador da relação entre Igreja e escravidão, disse que o gesto fortalece a credibilidade moral do Vaticano, embora ainda exista espaço para que a Igreja aprofunde sua autocrítica institucional sobre o tema.
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