- Um grupo menor de espécies abriga a maior parte dos vírus zoonóticos: vinte e seis vírgula cinco por cento dos mamíferos na fauna silvestre correspondem a setenta e cinco por cento dos vírus zoonóticos conhecidos.
- Primos, ungulados, carnívoros e morcegos concentram o maior risco, abrigando cento e trinta e dois dos dois duzentos e vinte e seis vírus zoonóticos já conhecidos (cinquenta e oito por cento).
- O risco futuro é maior nessas áreas, especialmente em morcegos, roedores e marsupiais, devido a mudanças esperadas no comércio de vida silvestre.
- O pesquisador Shivaprakash Nagaraju aponta que políticas mais inteligentes podem manter os grupos de maior risco fora do comércio, sem proibições totais, reconhecendo impactos de subsistência e segurança alimentar.
- Trang Nguyen ressalta a necessidade de vigilância mais eficaz e cooperação entre setor público e privado, com testes antes do transporte e na fronteira para acompanhar espécies de alto risco.
Em nova pesquisa publicada na revista Current Biology, um grupo liderado por Shivaprakash Nagaraju, cientista sênior da The Nature Conservancy na Índia, mostra que uma minoria de espécies de mamíferos no comércio de vida silvestre abriga a maioria dos vírus zoonóticos conhecidos. O estudo aponta que apenas 26,5% dos mamíferos no comércio respondem por 75% dos vírus zoonóticos identificados até agora.
Os investigadores destacam que primatas, ungulados, carnívoros e morcegos concentram o maior risco, abrigando 132 dos 226 vírus zoonóticos já descritos, equivalente a 58% do total. A pesquisa também aponta que vertebrados como morcegos, roedores e marsupiais podem representar maior perigo futuro devido a mudanças previstas no comércio de vida silvestre.
A análise de Nagaraju enfatiza que a concentração de risco em poucos grupos apresenta pistas importantes para políticas públicas. O estudo sugere manter fora do comércio de vida silvestre espécies com maior potencial de spillover, sem defender proibições absolutas que afetem meios de subsistência. A implementação de salvaguardas de biossegurança é destacada como prioridade.
A pesquisadora Trang Nguyen, fundadora da WildAct no Vietnã, reforça a necessidade de ações governamentais para reduzir riscos de transmissão. Segundo Nguyen, é essencial que autoridades acompanhem a importação legal de animais com triagens para patógenos e que haja colaboração entre setor privado e governo. Testes pré-transporte e na fronteira são citados como medidas-chave.
A reportagem ressalta ainda que o comércio ilegal de fauna é especialmente desafiador de monitorar. Nguyen aponta que, ao longo de quatro décadas, pandemias ocorridas, como HIV, SARS, influenza, Ebola e Zika, tiveram associações com tráfego e consumo de animais e com a degradação de habitats.
O estudo conclui que políticas públicas mais inteligentes podem reduzir spillovers sem zerar a atividade econômica relacionada à vida silvestre. Medidas sugeridas incluem manter fora do comércio as espécies de maior risco e ampliar vigilância de patógenos em mercados de animais.
Desdobramentos e implicações
- Dados mostram que impactos futuros dependem de decisões sobre quais espécies permanecem no comércio.
- Especialistas defendem maior controle sanitário em importações legais e cooperação entre setores para estratégias de mitigação.
- O trabalho reforça a necessidade de abordagens baseadas em evidências para reduzir riscos sem inviabilizar comunidades que dependem da atividade.
Fonte
Shivaprakash K. N. et al. Mammals, wildlife trade, and the next global pandemic. Current Biology, 2021. O estudo está disponível na revista citada e sinaliza direções para políticas de biossegurança.
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