- Novo estudo amplia o conceito de água do planeta para incluir água verde (precipitação, umidade do solo e evaporação) e conclui que esse limite foi “consideravelmente transgredido”.
- A avaliação, realizada pelo Stockholm Resilience Centre com parceiros internacionais, aponta que a modificação do ciclo da água aumenta os riscos do sistema terrestre.
- Com seis dos nove limites já ultrapassados, a resiliência do sistema terrestre está menor e mudanças regionais podem ocorrer com mais intensidade.
- A pesquisa destaca que a água verde está conectada a diversos impactos ecológicos, climáticos e hidrológicos, fortalecendo pressões sobre ecossistemas como a Amazônia e o Congo.
O boundary de água doce foi considerado transgredido de forma considerável, segundo nova pesquisa publicada nesta semana na Nature Reviews Earth & Environment. A revisão amplia o conceito para incluir a chamada água verde — chuva, umidade do solo e evaporação — e aponta que o uso humano já excede o espaço seguro para a vida na Terra. A constatação alerta para piora antes de qualquer reversão.
Pesquisadores do Stockholm Resilience Centre, com colaboração de instituições na Alemanha, Holanda, Finlândia, Áustria, Austrália, EUA e Canadá, lideram o estudo. O grupo argumenta que as modificações na água verde elevam riscos no sistema terrestre em escala sem precedentes para sociedades modernas.
A atualização da avaliação utiliza a umidade do solo na zona radicular para medir o novo limite de água verde. O método reflete pressões humanas diretas e impactos em dinâmicas ecológicas, climáticas, biogeoquímicas e hidrológicas.
A pesquisa destaca que mudanças na umidade do solo afetam o ciclo do carbono terrestre e podem inverter florestas em fonte de carbono, caso as emissões sejam altas. Evidências já aparecem em ecossistemas críticos como Amazônia e Congo.
A Amazônia, por exemplo, depende da umidade do solo para sua sobrevivência. Há sinais de aridez em partes da floresta, ligando mudanças climáticas e desmatamento a uma redução de umidade, segundo os autores do estudo.
Essa transgressão ocorre globalmente, variando entre florestas boreais, áreas agrícolas e biomas tropicais. Eventos climáticos extremos e uso da terra aumentam tanto secas quanto encharcamentos, ampliando riscos para o equilíbrio hidrológico.
A equipe ressalta que, com seis de nove fronteiras planetárias já transgredidas, a resiliência do sistema terrestre está significativamente baixa. A continuidade na deterioração eleva o risco de mudanças de regime ambientais regionais.
Para conter a escalada, os autores defendem ações imediatas de gestão hídrica, combate ao desmatamento e à degradção do solo. Tais medidas são vistas como essenciais para retornar a um espaço seguro de operação.
Impactos, drivers e caminhos
O estudo aponta que a mudança de uso da terra, poluição atmosférica e mudanças climáticas atuam de forma integrada na água verde. A equipe recomenda políticas rápidas para reduzir riscos e restabelecer a resiliência do sistema global.
Segundo Lan Wang-Erlandsson, líder do estudo, a modificação do ciclo da água é ampla e complexa, indo além da retirada para consumo humano. A pesquisa enfatiza que o problema envolve múltiplas ações humanas.
Johan Rockström, coautor e diretor do Potsdam Institute, afirma que o atual trajeto global pode colocar a água verde fora dos limites que a Terra tem suportado ao longo de milênios. O alerta é para evitar cruzar pontos de inflexão.
O que vem a seguir
Os autores reforçam a necessidade de ações rápidas para reduzir riscos do sistema terrestre, com foco em mudanças climáticas, manejo do solo e uso da terra. O objetivo é aumentar as chances de manter o espaço operacional seguro.
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