- O “chip da beleza” é um implante de 1,5 cm feito de silicone que libera hormônios e anabolizantes, prometendo emagrecimento, pele mais saudável e melhoria da menopausa, sem bula ou regulamentação da Anvisa.
- Casos de usuários, como Karina Porto e Milena, levantam riscos graves à saúde, incluindo infarto renal, hepatite medicamentosa, infecções, disfunções ginecológicas e necessidade de UTI.
- A plataforma Vigicom – Hormônios, criada por sociedades médicas, já cadastrou mais de 200 casos de efeitos adversos em dois meses, com quase metade relacionados ao chip.
- As entidades médicas defendem regulamentação mais rígida e pressionam a Anvisa para proibir a fabricação, importação e venda de formatos não aprovados, além de coibir profissionais que promovem o uso em redes sociais.
- A Anvisa diz estar analisando o tema com associações médicas; o Ministério da Saúde informa que, com exceção do etonogestrel, não há autorização para esses implantes hormonais.
Em 2022, Karina Porto, 52, procurou um ginecologista para tratar infecção urinária. O médico sugeriu reposição hormonal para a menopausa, mas apresentou o chamado chip da beleza, um implante de 1,5 cm com hormônios e anabolizantes. A promessa incluía pele mais saudável, disposição e ganho de massa magra.
O implante é um bastonete de silicone colocado sob a pele, geralmente no abdômen ou glúteos, que libera substâncias de forma contínua. A oferta é de emagrecimento, aumento de massa muscular, maior libido e alívio dos sintomas da menopausa, apresentado como antienvelhecimento. O produto não tem bula nem regulamentação da Anvisa.
Karina descreve efeitos logo após a implantação, como acne severa, engrossamento da voz e pelos no corpo. Um mês e meio depois, surgiram cólicas renais intensas e infarto renal por trombose, agravando-se com quadro de rim vicariante. A designer afirma que o ginecologista sabia de sua condição, mas não informou sobre riscos.
Ela também teve alterações ginecológicas, irregularidades menstruais e internação na UTI. Foi orientada a manter anticoagulantes em viagens e a conviver com síndrome do pânico. Endocrinologista que acompanha o caso aponta falta de estudos sobre absorção e duração da liberação dos hormônios pelo implante.
Outro caso citado é o de Milena, 47, que adotou o implante em 2023 para a menopausa. Além dos efeitos estéticos, houve quadro de hepatite medicamentosa grave, inflamação muscular e elevação rápida do LDL. Milena relata dores intensas, dificuldade para vestir roupa e sensação de enrijecimento corporal.
Casos como os de Karina e Milena motivaram a criação da plataforma VIGICOM – Hormônios, organizada pela SBEM, ABESO e Febrasgo. O objetivo é coletar dados sobre efeitos adversos e pressionar a regulamentação da prática. Em dois meses, mais de 200 relatos de complicações foram cadastrados.
As informações apontam que as mulheres são as principais usuárias do implante, com idade média de 42 anos, entre 15 e 82. Motivos comuns incluem estética, alívio da menopausa e fadiga, com frequência mais de uma razão por pessoa. Médicos ressaltam riscos elevados frente à falta de regulamentação.
Especialistas destacam que o uso do chip envolve pressão estética e interesse comercial. Ao apresentar o dispositivo, médicos costumam promover suplementos e ambientes favorecedores, o que pode levar pacientes a aceitarem tratamentos sem avaliação adequada.
Regulamentação e atuação profissional
Entidades médicas defendem regulamentação mais rígida, com proibição de uso de substâncias sem aprovação para vias não autorizadas. Entre os documentos apresentados está a proposta de vedar fabricação, importação e venda de hormônios fora de formatos aprovados pela Anvisa.
O debate envolve também a atuação de farmácias de manipulação que preparam os implantes e podem vendê-los a pacientes por valores entre 4 e 10 mil reais. Há relatos de empresas que promovem o uso de cobaias em treinamentos de colocação.
Do ponto de vista técnico, especialistas dizem que a prescrição de hormônios sem regulamentação eficaz é problemática, pois não há evidências de segurança para uso via implante. A Anvisa afirma estar analisando o tema e já descreveu reuniões com associações médicas.
Ainda segundo autoridades, não houve pedido de autorização para ensaios clínicos com esses implantes desde a introdução no Brasil. O Ministério da Saúde destacou que, com exceção do etonogestrel, não há autorização para uso desses hormônios por meio de implantes.
A SBEM, ABESO e Febrasgo avaliam ingressar com ação civil pública para suspender cautelarmente os implantes. A iniciativa defendida pelas entidades busca interromper a disseminação de dispositivos não regulamentados.
Contexto técnico e institucional
O endocrinologista Clayton Macedo explica que a prática pode ter utilidade em situações certas, mas defende a proibição de formatos sem regulamentação. Dirceu Barbano, ex-presidente da Anvisa, aponta brechas legais que permitem manipulação sem supervisão adequada.
Cristaliza-se a preocupação com a produção em grande escala por farmácias, o que contrasta com o funcionamento ético de manipulação individualizada. Imagens de potes com substâncias alimentam dúvidas sobre a natureza comercial dessa prática.
As sociedades médicas registram que o tema já ganhou visibilidade em eventos, com debates sobre riscos cardiovasculares. Profissionais ligados à cardiologia destacam que mulheres são as maiores vítimas desse fenômeno, impulsionadas por pressões estéticas.
Impactos para a saúde pública
Casos de complicações, incluindo AVC, hipertensão, arritmias, dislipidemia e internações, indicam riscos graves associados ao uso indiscriminado de hormônios via implantes. Dados da plataforma de registro reforçam a necessidade de regulamentação mais ampla.
Dados epidemiológicos apontam que a faixa etária/utilizadora média é de 42 anos, com ampla variação etária. Entre as motivações, prevalecem aspectos estéticos e o alívio de sintomas da menopausa, com respaldo mínimo de evidência científica.
Fontes e credibilidade
O conjunto de relatos, debates institucionais e manifestações oficiais sustenta o esforço regulatório. As autoridades ressaltam que o tema permanece sob análise técnica, com participação de sociedades médicas, conselhos e ministérios.
O Estado segue monitorando o tema e atualizará o público com novos desdobramentos sobre regulamentação, riscos à saúde e ações legais envolvendo o chip da beleza.
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