- Pesquisas do professor Marcelo Urbano Ferreira, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, mostram que a maioria das infecções por malária em áreas urbanas da Amazônia é assintomática e não detectada.
- Os estudos foram realizados em Mâncio Lima e Vila Assis Brasil, no Acre, onde a transmissão da doença é alta.
- Testes de PCR identificaram até dez vezes mais infecções do que a microscopia tradicional, dificultando a detecção em contextos de baixa transmissão.
- Mâncio Lima adotou a busca ativa-reativa, que envolve testar familiares e vizinhos de pessoas diagnosticadas, resultando em redução sustentada dos casos notificados.
- Um estudo em Vila Assis Brasil revelou que a população pode tolerar cargas mais altas de parasitas sem apresentar sintomas, complicando a vigilância da doença.
Malária Assintomática em Áreas Urbanas da Amazônia
Pesquisas recentes do professor Marcelo Urbano Ferreira, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), revelam que a maioria das infecções por malária em áreas urbanas da Amazônia é assintomática e não detectada. Os estudos foram realizados em Mâncio Lima e Vila Assis Brasil, no Acre, regiões com alta incidência da doença.
Os dados indicam que, em contextos de baixa transmissão, a detecção de parasitas por microscopia se torna cada vez mais difícil. Ferreira destaca que a redução da transmissão não significa o fim do problema, pois pode ocultar um reservatório de infecções que sustenta a transmissão local. A pesquisa envolveu mais de 2.700 moradores, com testes de PCR identificando até dez vezes mais infecções do que a microscopia tradicional.
Estratégias de Vigilância
Diante desse cenário, Mâncio Lima começou a implementar a busca ativa-reativa, uma estratégia recomendada pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Essa abordagem consiste em visitar residências de pessoas diagnosticadas com malária para testar familiares e vizinhos, mesmo assintomáticos. A metodologia foi associada à redução sustentada dos casos notificados no município.
Além disso, a pesquisa revelou que, mesmo com densidades parasitárias semelhantes, a chance de um exame microscópico identificar o parasita caiu ao longo dos anos. Isso torna a detecção e o tratamento mais desafiadores. Os pesquisadores também mapearam a diversidade genética dos parasitas, que circulam entre áreas urbanas e rurais, aumentando o risco de reintrodução da doença.
Desafios da Vigilância
Outro estudo focado em Vila Assis Brasil mostrou que, mesmo após a aplicação de larvicidas, os índices de infecção detectados por métodos moleculares caíram menos do que os casos clínicos. Isso sugere que a população pode tolerar cargas mais altas de parasitas sem desenvolver sintomas, complicando a vigilância baseada em sintomas.
Um terceiro estudo em andamento investiga por que a malária persiste em contextos de baixa transmissão. Os resultados indicam que cerca de 20% da população concentra até 80% das infecções por Plasmodium vivax, um padrão conhecido como princípio de Pareto. Esses indivíduos, mais suscetíveis, tornam-se portadores assintomáticos, mantendo a transmissão ativa.
Os pesquisadores enfatizam a necessidade de incorporar tecnologias moleculares no diagnóstico da malária e de redesenhar estratégias de vigilância que não dependam apenas da manifestação clínica. Para que o Brasil alcance a meta de eliminação da malária até 2035, será essencial investir em novos métodos de diagnóstico e em ações direcionadas a populações vulneráveis.
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