- Enxaqueca é uma doença neurológica crônica que afeta cerca de 15% da população brasileira, não devendo ser confundida com apenas uma dor de cabeça.
- O arsenal de tratamentos inclui medicamentos orais, toxina botulínica (botox) e anticorpos monoclonais que bloqueiam o CGRP; há também promessas recentes com terapias de luz, como o capacete.
- O HeadUp, capacete de luz aprovado pela Anvisa, foi testado em 55 pacientes no Ceará; houve redução da frequência e da intensidade das crises entre quem usou o dispositivo, mas o estudo é pequeno e ainda não foi publicado em revistas científicas.
- O diagnóstico é clínico, sem exame laboratorial conclusivo; critérios envolvem número de crises, duração de quatro a 72 horas e pelo menos dois entre dor latejante, unilateral, intensidade moderada a forte e piora com esforço, além de náusea e sensibilidade à luz e ao som.
- Mesmo com tratamentos eficazes, a enxaqueca continua subtratada para muitos pacientes; menos de 20% recebem tratamento preventivo, e o uso excessivo de analgésicos pode piorar o quadro.
O texto aborda como a enxaqueca é tratada no Brasil, destacando que não se trata apenas de dor de cabeça, mas de uma doença neurológica crônica que afeta cerca de 15% da população. O cérebro de quem sofre apresenta maior excitabilidade neuroquímica, tornando-o mais sensível a estímulos como barulho, luz ou privação de sono. A condição é mais comum em mulheres entre 20 e 50 anos.
A compreensão de que a enxaqueca tem componentes genéticos e ambientais ajuda a contextualizar o tratamento. Estudo aponta que a herdabilidade responde por metade do risco, com a outra metade associada a fatores ambientais. A OMS classifica a enfermidade como principal causa de incapacidade nessa faixa etária.
O arsenal terapêutico
Tratamentos variam conforme a gravidade e o perfil do paciente, com foco em acalmar o cérebro e reduzir a hiperexcitação neural. Medicamentos orais aparecem entre as opções mais antigas, atuando no equilíbrio de neurotransmissores. São usados como prevenção diária, mas apresentam eficácia moderada e podem trazer efeitos colaterais.
A toxina botulínica, conhecida como botox, é aplicada em pontos estratégicos da cabeça, pescoço e ombros. O objetivo é modular neurotransmissores excitatorios e estabilizar o sistema nervoso, com aplicação trimestral e boa durabilidade de efeito.
Anticorpos monoclonais representam avanço recente na prevenção da enxaqueca. O tratamento bloqueia o peptídeo CGRP, reduzindo inflamação e hiperexcitação neural. Administrados por injeção subcutânea, podem ser usados mensal ou trimestralmente e, em alguns casos, combinados ao botox. Contudo, o custo elevado é uma limitação.
Capacete de luz: promessa tecnológica
A Anvisa aprovou o HeadUp, capacete que utiliza fotobiomodulação para tratar a enxaqueca. O dispositivo foi testado em 55 pacientes no Hospital Municipal Mendo Sampaio, em Pernambuco, sob coordenação de Idele Guimarães. O estudo comparou uso de luz com uso sem luz, em dez sessões de 20 minutos, três vezes por semana.
Resultados indicaram redução da frequência e da intensidade das crises entre quem utilizou a tecnologia. A técnica atua em regiões cerebrais específicas, reduzindo a cascata inflamatória associada à dor. Especialistas reconhecem o potencial, mas destacam que o estudo tem tamanho reduzido e ainda não foi publicado em revistas científicas; é cedo para confirmar eficácia generalizada.
Reconhecimento e diagnóstico
Apesar das opções terapêuticas, o reconhecimento da enxaqueca como doença crônica ainda é um desafio. Muitos pacientes adiam o manejo especializado, recorrendo a analgésicos de forma indiscriminada. O diagnóstico é clínico, sem exames laboratoriais ou de imagem definitivos, exigindo avaliação cuidadosa do médico.
Critérios de identificação incluem frequência de crises ao longo da vida, duração típica de 4 a 72 horas sem tratamento, e pelo menos dois dos seguintes sinais: dor latejante, unilateral, intensidade moderada a alta, piora com esforço. Náusea, vômito e sensibilidade à luz e ao som costumam acompanhar.
Em média, menos de 20% dos diagnosticados iniciam tratamento preventivo, que é essencial para reduzir crises. O diagnóstico exige formação médica adequada, já que a doença é invisível em exames e depende da experiência clínica.
Perspectivas e cuidados
O tratamento deve combinar uso de medicamentos, ajustes de estilo de vida e acompanhamento médico contínuo. O objetivo é reduzir crises e melhorar a qualidade de vida, evitando depender apenas de analgésicos. A literatura destaca que o cérebro do paciente com enxaqueca requer cuidado prolongado, não apenas alívio pontual.
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