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Mudança na alimentação ameaça cultura e saúde de ribeirinhos da Amazônia

Mudança alimentar de ribeirinhos para ultraprocessados amplia insegurança nutricional, ameaça saúde e preservação de tradições na Amazônia

A imagem está dividida em quatro faixas diagonais, cada uma mostrando um alimento típico da Amazônia. Na primeira faixa, à esquerda, há um tatu com a carapaça clara e manchada, colocado sobre um tronco de madeira. Na segunda faixa, aparecem várias raízes de mandioca recém-colhidas, de casca marrom e interior claro. A terceira mostra um cacho de pupunha, com frutos vermelhos e verdes pendendo de uma palmeira sob o céu azul. Na última faixa, à direita, há um peixe amazônico de escamas amarelas e alaranjadas, colocado dentro de uma vasinha de mental.
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  • Comunidades ribeirinhas da Amazônia, na Floresta Nacional de Caxiuanã, Pará, estão trocando alimentos tradicionais por produtos industrializados.
  • Estudo da USP, com dados de 2019 a 2023, mostra aumento do consumo de alimentos industrializados: carboidratos de 14% para 33%, proteínas de 13% para 33% e gorduras de 21% para 71%.
  • A transição nutricional eleva riscos de doenças crônicas, com as mulheres sendo as mais afetadas e mais propensas a insegurança alimentar.
  • Fatores que ajudam o processo incluem programas de redistribuição de renda, pandemia de covid-19 e políticas públicas de alimentação que promovem ultraprocessados, além de impactos climáticos que reduzem pesca e produção de feijão.
  • A pesquisa aponta que, mesmo com avanço de políticas, a alimentação tradicional ainda é preferida quando há opção, destacando a necessidade de alimentação alinhada com a cultura local.

A tese de um estudo realizado pela USP mostra que comunidades ribeirinhas da Amazônia trocam dieta tradicional por produtos industrializados. A pesquisa, conduzida pela bioantropóloga Mariana Inglez, foca na Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, entre 2019 e 2023. O objetivo é entender como mudanças ambientais e sociais afetam alimentação, saúde e cultura local.

Segundo o estudo, o consumo de alimentos industrializados cresceu significativamente ao longo de duas décadas. Carboidratos vindos de itens comprados passaram de 14% para 33%, proteínas de 13% para 33% e gorduras de 21% para 71%. A substituição envolve itens como arroz branco, açúcar, óleo, refrigerantes e macarrão instantâneo.

A autora explica que a transição representa a substituição de alimentos que integram a identidade local e a relação com o ambiente. A pesquisa utilizou método etnográfico, com convivência e imersão nas comunidades citadas. A ideia é mapear como escolhas alimentares afetam saúde e tradição.

Contexto e método

O estudo comparou dados atuais com informações de 2002 a 2009 coletadas por Bárbara Piperata, orientadora da pesquisadora na The Ohio State University. A abordagem biocultural busca integrar aspectos biológicos, socioculturais, econômicos e ambientais, com foco em uma leitura decolonial.

Entre 177 participantes, adultos, jovens e crianças, houve ganho de peso de toda a população, com maior impacto entre mulheres. A pesquisadora aponta risco aumentado de hipertensão, obesidade e diabetes nessas mulheres, associando insegurança alimentar a maior consumo de ultraprocessados.

Causas e impactos

O estudo aponta que programas de redistribuição de renda ajudaram a reduzir a fome, mas houve elevação da insegurança alimentar. A pandemia de covid-19 intensificou a exposição a vulnerabilidades, por meio de interrupções na cadeia de abastecimento e na renda local.

Outra linha de análise envolve políticas públicas de alimentação. Cestas básicas e a merenda escolar costumam conter ultraprocessados, destoando do Guia Alimentar para a População Brasileira. A discrepância entre recomendações oficiais e práticas locais é destacada pela pesquisadora.

O papel das alterações climáticas também é destacado. A redução de chuvas e o aumento da temperatura afetam a produção agrícola e a disponibilidade de peixes, dificultando a dependência de fontes tradicionais de alimento. O que era plantado ou pescado localmente tornou-se menos estável.

Perspectivas e preferências locais

Apesar das pressões externas, há percepção de que, quando há escolha, a população ainda prefere alimentos tradicionais. A dieta típica inclui peixe cozido com farinha, ou farinha de mandioca, reforçando a relação com práticas culturais e ambientais locais.

A pesquisadora ressalta que o estudo utiliza uma visão que coloca as próprias comunidades no centro do debate sobre saúde, alimentação e desigualdade. O objetivo é compreender as dinâmicas locais sem generalizações, reconhecendo a diversidade entre comunidades da região.

Estudo defendido em 2024, sob orientação de Rui Sérgio Sereni Murrieta, integra a linha de pesquisa em Genética e Biologia Evolutiva do IB. A figura central é a compreensão biocultural das mudanças alimentares na Amazônia brasileira.

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