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Paralisia do sono: relatos de quem convive com o problema há décadas

Paralisia do sono atinge cerca de 7,6% da população mundial, com imobilidade, alucinações e medo, associadas a genética, estresse e privação de sono

Foto colagem, de uma pessoa de semblante sombrio se aproximando de uma pessoa que está dormindo.
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  • Cerca de 7,6% da população mundial já sofreu pelo menos um episódio de paralisia do sono, o que soma cerca de 620 milhões de pessoas.
  • O distúrbio ocorre quando a fase REM do sono mantém o tônus muscular inibitório, mesmo após acordar, levando à imobilidade, sensação de peso no peito e dificuldade de respirar.
  • Alucinações e sensação de presença (às vezes sombrias) são comuns em até três quartos dos casos, aumentando o medo durante os episódios.
  • Fatores como genética, privação de sono, estresse, uso de álcool ou drogas, apneia e narcolepsia podem contribuir; a gravidade varia entre as pessoas.
  • Tratamento não é padronizado; pode incluir abordagens medicamentosas apenas em casos graves, além de medidas para melhorar a qualidade do sono e lidar com gatilhos.

A paralisia do sono é um distúrbio que pode aparecer de forma imprevisível, deixando a pessoa acordada, porém imobilizada, com dificuldade para respirar e uma sensação de ameaça. O relato inicial, de um antropólogo, revela como esse episódio pode marcar gerações e ser mal interpretado por quem observa.

O caso de Eduardo, hoje com 46 anos, foi o primeiro que viveu na infância. Em março de 1992, aos 13 anos, ele acordou sem conseguir mexer o corpo, sentindo pressão no peito e tremores, enquanto o sonho parecia prolongar-se. O episódio durou alguns minutos.

Ao longo dos anos seguintes, Eduardo enfrentou perturbação pela falta de conhecimento ao redor, além de associar o distúrbio a punição por sua orientação sexual. O medo e a incompreensão dificultaram o manejo do problema na vida adulta.

Os gatilhos

A paralisia do sono resulta de uma combinação de fatores, não de um único causador. A genética desempenha papel relevante: estudos indicam que até 53% do risco pode ter origem hereditária, especialmente entre gêmeos e familiares.

Além da genética, há condições associadas como narcolepsia, hipertensão, apneia, privação de sono, uso de álcool ou drogas, estresse e cansaço extremo. Quanto pior a qualidade do sono, maior a chance de episódios.

Outros casos costumam envolver ansiedade ligada a eventos específicos. Anderson, aos 14 anos, experienciou o primeiro episódio em meio a tensão para uma prova, e episódios repetidos ocorreram em momentos de estresse.

Como é um episódio

O sono tem fases repetidas, incluindo a REM, em que ocorrem sonhos mais vívidos. Durante a REM, o tônus muscular é suprimido para evitar lesões durante o sonho. Na paralisia, esse repouso muscular demora a retornar, deixando o corpo imóvel ao despertar.

A sensação de peso no peito ou nas costas é comum, especialmente pela posição de dormência. A psicóloga Vinícius Dokkedal Silva explica que o atraso na retomada do tônus muscular explica a paralisia do sono.

Juliana Lobo, designer gráfica, convive com o distúrbio desde os 10 anos. Ela descreve acordar parcialmente, ver e ouvir o ambiente, mas não conseguir mover-se, sentindo uma força que a impede de despertar completamente.

Um estranho no escuro

Além da imobilidade, 75% dos acometidos relatam alucinações associadas, com a sensação de ser observado por figuras sombrias. Juliana descreveu episódios em que percebe a presença de alguém, às vezes com a percepção de voz, o que aumenta o pânico.

Alguns relatos citam alucinações hipnagógicas, com vultos vistos logo após acordar. Esses fenômenos podem intensificar o medo e a percepção de entidades no quarto, dificultando a passagem entre sono e vigília.

Terror no alvorecer

Diversas culturas associaram essas sensações a entidades sobrenaturais, como demônios ou bruxas. Narrativas históricas mencionam entidades que punham os adormecidos à prova, uma explicação que perdura em algumas tradições.

O imaginário popular ganhou referência na pintura O Pesadelo, de 1781, que retrata um íncubo sobre a figura feminina, simbolizando esse assédio durante o sono. A imagem ajudou a popularizar a ligação entre paralisia e entidades perturbadoras.

Como lidar

Especialistas destacam que a paralisia do sono não é tratada como doença isolada, mas pode exigir intervenção em casos graves. Medicamentos, como antidepressivos ou estimulantes, podem ser indicados quando há alta recorrência, especialmente em pacientes com narcolepsia.

Para quem convive com o problema, melhorar a qualidade do sono é o principal aliado. Estratégias incluem manter horários regulares, evitar estimulantes perto da hora de dormir e buscar orientação médica quando necessário. Em alguns casos, o manejo envolve acompanhamento com neurologista.

Alguns relatos relatam tentativas isoladas de tratamento médico durante a faculdade, sem adesão contínua. Em paralelo, pesquisas recentes sugerem que diferenças morfológicas em regiões como cerebelo e ponte podem estar ligadas à frequência de episódios, abrindo caminhos para novas investigações.

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