Perder o movimento das pernas sempre foi considerado um problema irreversível, principalmente quando envolve lesões na medula espinhal. Mas cinco pessoas já voltaram a se mexer graças à polilaminina, um medicamento que funciona como uma “cola” para a espinha. Atualmente, 16 pessoas recebem a aplicação da substância. A pesquisadora por trás do medicamento é a […]
Perder o movimento das pernas sempre foi considerado um problema irreversível, principalmente quando envolve lesões na medula espinhal. Mas cinco pessoas já voltaram a se mexer graças à polilaminina, um medicamento que funciona como uma “cola” para a espinha. Atualmente, 16 pessoas recebem a aplicação da substância.
A pesquisadora por trás do medicamento é a brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, que passou mais de 20 anos se dedicando à pesquisa.
A descoberta de Tatiana Coelho
A polilaminina é um medicamento desenvolvido a partir da laminina, proteína extraída da placenta capaz de modular células e reorganizar tecidos do sistema nervoso. Atualmente, ela é produzida em parceria com o laboratório brasileiro Cristália.
Com isso, a polilaminina é injetada diretamente na lesão da medula e funciona como uma “cola” que ajuda a regenerar o local. Agora, o medicamento só aguarda a aprovação da Anvisa.
Dos pacientes que receberam o tratamento, cinco já recuperaram o movimento, total ou parcialmente.
O primeiro foi um Luiz Fernando Mozer, de 37 anos que, após um acidente de moto, sofreu uma lesão medular e, 48 horas depois da aplicação do medicamento, voltou a movimentar partes do corpo que antes estavam imobilizadas.
O segundo paciente também perdeu os movimentos após um acidente de moto e recuperou a sensibilidade na perna e o movimento dos pés. O terceiro, Bruno Drummond de Freitas, foi diagnosticado com tetraplegia e voltou a anda. Já no quarto, Diogo Barros Brollo voltou a mexer o pé depois do tratamento.
Quem é a cientista brasileira?
Fora do laboratório, Tatiana Coelho de Sampaio, de 59 anos, é carioca, mãe de dois filhos e diz que quis seguir a carreira científica desde criança. Na família, virou a “ovelha negra”, pois todos eram das áreas de humanas.
Isso inclui o pai, Luís Sérgio Coelho de Sampaio, professor e filósofo, que, mesmo em uma área bem diferente, sempre esteve ao lado dela, assim como o restante da família.
Luís, inclusive, influenciou na forma de Tatiana pensar, o que foi fundamental para que desenvolvesse sua carreira como pesquisadora. O legado dele foi ensiná-la a olhar para tudo de forma mais ampla, conectando diferentes áreas, não só para entender a ciência, mas também a vida.
Sua história fora das conversas com a família e dentro do ramo acadêmico começou em 1983, quando ela entrou na UFRJ para cursar Ciências Biológicas e se formou na área.
Esse foi apenas o pontapé para um currículo que, hoje, reúne mestrado, doutorado e pós-doutorados, incluindo passagens por instituições no exterior, como a Universität Erlangen Nürnberg, na Alemanha, e a University of Illinois, nos Estados Unidos.
Mas, antes mesmo de o currículo ganhar a dimensão atual, houve uma virada de chave: em 1998, ela iniciou a linha de pesquisa que mais tarde levaria à polilaminina.
O início foi na CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, onde ela e o grupo estudaram a molécula e a resposta celular. Depois, avançaram para testes em animais e, mais tarde, para o uso experimental em humanos.
O estudo se estendeu por mais de 20 anos e, entre 2016 e 2021, o primeiro teste experimental foi feito com oito pessoas. Nessa etapa, duas morreram por causas não relacionadas ao tratamento, e as outras seis tiveram recuperação parcial dos movimentos, associada à fisioterapia.
A partir daí, a descoberta começou a se consolidar, e um ponto importante foi a parceria com o laboratório brasileiro Cristália, que investiu mais de R$28 milhões na pesquisa.
Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início de um estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança da polilaminina em humanos. A partir dali, começaram a surgir os primeiros pacientes com melhora do quadro, e Tatiana viu mais de 20 anos de trabalho ganharem reconhecimento.
Hoje, ela administra uma equipe de 15 pessoas, formada majoritariamente por médicos, e é apontada nas redes como uma das favoritas para o prêmio Nobel da paz.
No entanto, quando o reconhecimento veio e se transformou em fama, Tatiana demorou a se dar conta do que estava acontecendo. Aos poucos, entre selfies pedidas por desconhecidos na rua, ela foi percebendo até onde havia chegado, e como as redes sociais, das quais não participa, haviam se tornado uma vitrine poderosa.
Mesmo com a visibilidade que ganhou, e a necessidade de ficar sempre atenta a ligações e notificações, o foco dela segue na vida real. Em entrevista à revista Marie Claire, ela reforçou as raízes fora do laboratório, perto do samba e das festas.
“Tenho pouco tempo livre, então sempre vou pro samba tomar cerveja. Minha natureza não é ficar em casa quietinha, lendo, não. Eu gosto de rua, de gente, de sair com meus amigos” relatou a cientista.
Mesmo tendo dedicado a vida aos estudos, que no fim deram frutos, ela sempre disse que ama viver. Para Tatiana, esse é o segredo da jovialidade e de seu sorriso no rosto, mesmo dormindo só seis horas por dia e, agora, com a agenda lotada.
O coração aberto para cuidar dos outros não ficou só na ciência, ele também aparece na vida de mãe. Tatiana tem três filhos: dois biológicos e Silveira, que vivia no Maranhão e foi separada da irmã, seu único refúgio.
Ao chegar ao Rio de Janeiro, ela encontrou abrigo físico e emocional no apartamento de Tatiana, em Laranjeiras, enquanto procurava abrigo em outras casas. Silveira descreve a trajetória ao lado de Tatiana e os aprendizados adquiridos ao longo desse período, o que revela o afeto existente na família.
Independentemente de qualquer prêmio, Tatiana já deu uma nova vida a uma órfã, ajudou cinco pessoas a voltarem a se movimentar e segue trabalhando para que essa mudança alcance mais gente.
Entre na conversa da comunidade