- Pescadores em Thiruvananthapuram, Kerala, libertaram um tubarão-baleia preso numa rede tradicional, após cerca de trinta minutos de manobras com facas e cordas.
- A ação faz parte de uma mudança histórica na costa oeste da Índia, onde caçadores passaram a atuar como salvadores, apoiados pela Wildlife Trust of India (WTI) e pela campanha Save the Whale Shark.
- Em 2001, o tubarão-baleia ganhou status de proteção máximo na Índia, e desde então mais de mil animais foram resgatados e devolvidos ao mar ao longo da costa ocidental.
- Em Kerala, a prática de cortar as redes no mar, ao avistar tubarões, é auxiliada pela compensação de 25.000 rupias por rede danificada, ajudando a manter a convivência entre pescadores e a espécie.
- A iniciativa se expandiu para Lakshadweep e outras áreas da costa ocidental, promovendo educação, conscientização nas escolas e participação comunitária na preservação do tubarão-baleia.
O resgate de baleias-jubarte? Não: baleias-patudo, os tubarões-vivos de maior porte do mundo, ocorreu na manhã de março nos arredores de Thiruvananthapuram, na capital de Kerala, no sul da Índia. Um grupo de pescadores ouviu o barulho da rede kambavala, presa entre bambus fincando no leito do mar, e percebeu que havia um animal preso.
A sombra escura, salpicada de pontos brancos, pertencia ao tubarão-baleia Rhincodon typus, que lutava dentro da rede de pano e aros. A decisão foi rápida: libertar o animal poderia custar a renda do mês aos pescadores, mas manter a rede presa significaria a morte do animal. Ajit Shanghumukhom, representante da comunidade pesqueira e voluntário treinado pela Wildlife Trust of India (WTI), orientou a operação: não deixar o tubarão morrer.
Durante meia hora, com facas e cordas, a equipe cortou a malha pedaço a pedaço. a água espumava com as arrancadas do tubarão. Quando ficou livre, a multidão na praia silenciou. A rede ficou ao redor da água como ferida aberta, mas todos sorriram. Perderam o rendimento, porém ganharam a sensação de ter restaurado o ritmo do mar.
O papel dos pescadores na conservação
Há cerca de 20 anos, a costa oeste da Índia tinha um retrato bem diferente. Em Veraval, Gujarat, e na Ilha de Diu, centenas de tubarões-baleia eram mortos anualmente pela gordura do fígado e pela carne. Quando o mercado de carne fresca caiu, a indústria de ração para aves passou a comprar carcaças em grande volume. A matança continuou até 2001, quando a WT I, com apoio da International Fund for Animal Welfare, lançou a campanha Save the Whale Shark.
O marco ocorreu quando Morari Bapu, líder espiritual de Gujarat, batizou a espécie de Vhali, que significa “o amado”, e convocou a proteção. Por meio de peças de rua, compromissos públicos e campanhas escolares, a sociedade passou a ver o tubarão como mais que recurso. No mesmo ano, o governo indiano protegeu o tubarão no Schedule I da Lei de Proteção à Vida Silvestre.
Desde então, mais de mil tubarões-baleia foram resgatados e devolvidos ao mar ao longo da costa ocidental. Pescadores passaram a cortar as redes para liberar animais, com a WT I compensando as perdas.
Kerala: mudança de hábitos e proteção
Em Kerala, o desafio é diferente. Os tubarões frequenta m as águas rasas, atraídos por plâncton. As redes kambavala, curvas em funil, guiavam peixes até um compartimento central, mas também prendiam tubarões, golfinhos e raias quando a maré subia e a água recuava.
Para cada tubarão libertado com êxito, a WT I verifica o resgate com fotos ou vídeos e compensa o pescador com 25 mil rúpias pela rede danificada. Sajan John, chefe de projetos marinhos da WT I, afirma que ninguém deve perder o sustento por salvar uma vida.
Em Thiruvananthapuram, as redes são cortadas no mar assim que um tubarão é avistado. Equipes pequenas e grandes respondem rapidamente, evitando o encalhe com vida presa. O repórter de campo aponta que a prática representa uma reversão cultural na região.
Um em cada vez: resultados locais
Shanghumukhom lidera ações de resgate entre Shankumugham Beach e Adimalathura, já auxiliando dezenas de tubarões. A WT I credita parte do sucesso a treinamentos com pescadores e jovens locais, além de campanhas de conscientização em escolas e comunidades costeiras.
Para a região, o movimento de conservação se ampliou para Lakshadweep. Ali, comunidades tradicionais não caçavam tubarões, mas redes modernas aumentaram o risco de enredamento acidental. Voluntários da WT I percorrem as ilhas com apoio de parceiros locais, promovendo ações de educação.
Desafios e perspectivas
Embora muitos pescadores tenham visto a conservação como uma oportunidade de convivência, o tubarão-baleia continua classificado como vulnerável pela lista global de espécies. Mudanças climáticas, atropelamentos e poluição continuam a representar ameaças.
Alguns pescadores relatam que a compensação financeira não cobre custos totais de redes e deslocamentos. A liderança local defende que o apoio vá além do ressarcimento, incluindo reconhecimento formal, seguro, capacitação e participação em programas de gestão marinha. A ideia é transformar o salvamento em atividade compartilhada com ganhos para a comunidade.
A WT I aponta que, com o tempo, rescates e ganhos comunitários criam um corredor de cuidado ao longo do Mar Arábico. A meta é manter tubarões-baleia livres para migrar entre Gujarat, Kerala e Lakshadweep, fortalecendo a proteção coletiva do oceano.
Observadores destacam que a mudança cultural, aliada a ações de governança local, pode tornar a proteção mais estável. A atuação de Shanghumukhom, que passou de curioso a guardião marinho, ilustra o papel de cidadãos na proteção de uma espécie ancestral.
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