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Vegetação de Mariana se adapta aos rejeitos de mineração

Vegetação de Mariana desenvolve defesas químicas diante dos rejeitos da mineração; assa-peixe e jaborandi-do-mato alteram metabolismos para enfrentar metais tóxicos

Fotografia do rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, cujos donos são a Vale a anglo-australiana BHP, causou uma enxurrada de lama que inundou várias casas no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais.
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  • Em novembro de dois mil e quinze, rompimento da Barragem do Fundão em Mariana (MG) espalhou mais de quarenta milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, contaminando cerca de seiscentos e cinquenta quilômetros da bacia do Rio Doce com metais como ferro, arsênio, mercúrio, cádmio e manganês.
  • Pesquisadores da USP, Ribeirão Preto, mostraram que plantas da região afetada desenvolveram defesas específicas para sobreviver ao ambiente tóxico.
  • As duas espécies estudadas, assa-peixe (Vernonanthura polyanthes) e jaborandi-do-mato (Piper aduncum), foram coletadas em dois mil e dezoito, cerca de dois anos após o desastre.
  • Em resposta aos metais, a assa-peixe aumentou a produção de peptídeos, enquanto o jaborandi-do-mato elevou a produção de fenilpropanoides, indicando estratégias de defesa distintas entre as espécies.
  • O estudo, publicado na revista ACS Omega, sugere que essas adaptações podem contribuir para a resiliência ecológica da região, mas aponta que alterações químicas podem impactar propriedades medicinais das plantas, ainda não testadas no trabalho.

Em novembro de 2015, a Barragem do Fundão rompeu em Mariana, MG, liberando mais de 40 milhões de m³ de rejeitos. Metais como ferro, arsênio, mercúrio, cádmio e manganês contataram a bacia do Rio Doce, degradando ecossistemas ao longo de 650 km.

Décadas após a tragédia, pesquisadores da USP de Ribeirão Preto verificaram adaptações em plantas da região. Assa-peixe e jaborandi-do-mato reduziram danos causados pela toxicidade dos metais, mantendo a aparência semelhante às plantas não expostas.

As espécies analisadas são sésseis, fixas no terreno, o que as leva a responder por meio do metabolismo frente a estresses ambientais. A adaptação foi descrita em estudo recente publicado na ACS Omega.

Metabolismo adaptativo

As plantas foram coletadas em 2018, aproximadamente dois anos após o rompimento. Em áreas afetadas, cresceram sobre detritos secos, sem diferenças visuais aparentes, frente a amostras de áreas não impactadas.

Entretanto, a análise química mostrou mudanças: assa-peixe elevou vias que aumentam peptídeos; jaborandi-do-mato apresentou aumento de fenilpropanoides. Respostas distintas indicam estratégias específicas de cada espécie.

Essas alterações apontam mecanismos de defesa contra a toxicidade dos metais nos tecidos vegetais. Estudos anteriores já haviam indicado ajustes metabólicos semelhantes em outras espécies sob estresse.

Implicações e cautelas

Assa-peixe e jaborandi-do-mato são usados pela população local por propriedades medicinais. As mudanças químicas podem, em teoria, tornar a planta menos segura para uso, hipótese ainda não testada no estudo.

Os autores destacam que alterações no metabolismo podem afetar atividades biológicas das plantas, o que requer vigilância das comunidades que dependem dessas espécies.

Processo de pesquisa

As amostras passaram por identificação, secagem e extração de metabolitos com solventes. Os extratos foram analisados por cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas para mapear substâncias.

Com os dados obtidos, métodos computacionais ajudaram a identificar padrões de alteração metabólica. Parte da determinação estrutural das substâncias foi confirmada manualmente pela pesquisadora.

A pesquisa reforça a ideia de resiliência ecológica em áreas afetadas por desastres ambientais, com respostas específicas de cada espécie estudada.

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