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Como a ciência passou a levar o RPG a sério

RPG terapêutico ganha respaldo científico ao transformar imaginação em laboratório de comportamento, emoção e tomada de decisão em tempo real

Fotografia de uma mesa de RPG.
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  • Psicólogos, educadores e pesquisadores passaram a usar o RPG como tecnologia psicológica para observar tomada de decisão sob incerteza, negociação social e regulação emocional numa mesa de jogo.
  • Modelos clínicos estruturados e obras como Tabletop Role-Playing Therapy, TA-RPG e coletâneas da Springer contribuíram para diretrizes práticas, ética e condução terapêutica com RPG.
  • A prática clínica ganhou campo com a pandemia: crianças e adultos foram atendidos com RPG, observando padrões de decisão, rigidez cognitiva e estratégias de enfrentamento; surgiu a Terapia de Imersão Imaginativa (RPG Terapia).
  • O RPG funciona como laboratório comportamental simbólico, permitindo observar ações em tempo real diante de cenários controlados, com consequências claras, indo além do que o paciente relata.
  • Em sessões, o personagem atua como protótipo cognitivo, ajudando a experimentar comportamentos, emoções e decisões em ambiente seguro, expandindo recursos terapêuticos e diagnósticos.

Nos últimos anos, pesquisadores passaram a observar RPG — jogos de interpretação de papéis — como ferramenta para entender comportamento, identidade e tomada de decisões. O RPG é um jogo narrativo colaborativo em que várias pessoas constroem uma história, com regras e dados que determinam resultados em cenários incertos.

Nesse formato, a psicologia investiga decisões sob incerteza, negociação social e regulação emocional. A imaginação deixa de ser apenas lazer para se tornar uma prática estruturada, que funciona como uma tecnologia capaz de organizar pensamento, emoção e comportamento.

Essa virada ganhou corpo com publicações e modelos terapêuticos que estruturam o RPG para uso clínico. Obras como Tabletop Role-Playing Therapy, o método TA-RPG e coletâneas da Springer consolidam fundamentos, diretrizes éticas e procedimentos práticos, apoiados por estudos sobre imaginação e aprendizado.

Consolidação científica e modelos estruturados

Pesquisas recentes formalizam o RPG em modelos clínicos. Além de relatos, há diretrizes para condução terapêutica, ética e adaptação de sistemas populares como Dungeons & Dragons para contextos terapêuticos, com simplificações quando necessário.

Estudos indicam que a imaginação, compreendida como ensaio de ações, ajuda na regulação emocional e na experimentação de estratégias. O RPG transforma processos internos em experiência compartilhada com feedback, acelerando o aprendizado.

Da prática clínica à sistematização

Eu comecei a usar o RPG na clínica durante a pandemia, quando o atendimento migrava online. A mediação pela narrativa permitiu que crianças falassem de medos e conflitos familiares de forma mais espontânea, com a fantasia funcionando como mediação simbólica.

Depois, aprofundei o tema no pós-doutorado e passei a aplicar o método com adultos. O formato revelou padrões de decisão, estratégias de enfrentamento e dificuldades de regulação emocional com clareza. Assim nasceu a Terapia de Imersão Imaginativa, ou RPG Terapia.

Para além do autorrelato

O RPG extrapola o autorrelato tradicional, oferecendo um contexto em que observa-se o paciente agindo diante de dilemas. O terapeuta acompanha escolhas em tempo real, medindo respostas a frustrações, conflitos e negociações em cenas estruturadas.

O jogo funciona como laboratório comportamental simbólico. Cada ação gera efeitos dentro da narrativa, permitindo que o paciente vivencie consequências sem riscos da vida real e que o terapeuta ajuste cenários conforme a resposta observada.

Quando o jogo vira ferramenta aplicada

Nos ambientes clínico, educacional e de pesquisa, RPGs narrativos passam a ser usados de forma intencional para promover reflexão e reorganizar padrões de comportamento. A estrutura central é a narrativa colaborativa, com decisão sob incerteza e consequências claras, seguidas de reflexão.

O aprendizado ocorre pela experiência vivida, não apenas pela explicação teórica. O paciente não apenas descreve escolhas; ele as realiza na prática simbólica, com feedback imediato, enriquecendo a compreensão do funcionamento psicológico.

O personagem como protótipo cognitivo

Cada jogador cria um personagem que reflete traços pessoais ou os contraria. O personagem funciona como protótipo cognitivo, modelo mental que organiza experiência, antecipa ações e testa possibilidades. Assim, tendências como impulsividade ou evitação aparecem de forma distanciada.

Técnicas de role-playing já utilizam esse princípio há décadas, mas a fantasia adiciona uma camada de mediação. Cenários simbólicos permitem explorar conflitos com mais liberdade do que situações realistas estritas.

O processo em ação

Imagine uma sessão com um jovem que teme conflito. A história envolve uma cidade fictícia em crise, e o personagem negocia com a líder local. A cena exige decisão: falar ou calar? O terapeuta apresenta obstáculos e o paciente experimenta estratégias, seguidas de reflexão sobre sentimentos e resultados.

Essa abordagem transforma comportamento em dados clínicos observáveis. O RPG oferece um espaço seguro para experimentar hipóteses clínicas, ajustando respostas diante de variações no cenário.

Manoel Acioli é doutor em psicologia e especialista em terapias gamificadas e RPG terapia.

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