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Como as cidades ajudaram a criar a escrita e a gramática

A escrita e a gramática surgiram com as cidades, fixaram línguas no tempo e impulsionaram a consolidação de Estados e a dominação de povos

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  • As tecnologias de linguagem — escrita, gramática e dicionários — surgiram com as revoluções urbanas que deram origem às cidades, fixando uma língua no tempo.
  • A escrita mais antiga apareceu há cerca de oito mil anos na Mesopotâmia, coincidindo com os primeiros assentamentos, e evoluiu junto com o surgimento da cidade.
  • O desenvolvimento da escrita está ligado à organização do Estado, ao comércio e à necessidade de registrar posse, dívidas e trocas, marcando a passagem da memória para o registro.
  • Com o tempo, as línguas passaram a ter gramática padrão para facilitar o ensino e a comunicação entre povos sob Estados nacionais, especialmente na Europa entre fim da Idade Média e Renascimento.
  • Nas colonizações, gramáticas de línguas locais foram usadas para ensinar e impor o modelo de cidade e urbanização europeu, como parte de uma lógica de dominação e fixação de línguas.

O texto analisa como a escrita, a gramática e os dicionários surgiram com as transformações urbanas. Segundo a pesquisadora Carolina Rodríguez-Alcalá, do Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp, essas ferramentas são tecnologias de linguagem que ajudam a fixar uma língua no tempo, assim como as cidades prendem pessoas em espaços urbanos.

Os primeiros signos escritos surgiram no Neolítico, há cerca de 8 mil anos, na Mesopotâmia. Esses registros aparecem junto com assentamentos permanentes, ainda sem cidade organizada. A pesquisadora aponta uma coincidência histórica entre a evolução da escrita e o surgimento das cidades.

A partir daí, o desenvolvimento da escrita e dos assentamentos urbanos ocorreu ao longo de séculos. Um salto decisivo é a chamada revolução da escrita e a revolução urbana. Uruk é citada como exemplo da primeira cidade onde a escrita cuneiforme é preservada.

A relação entre escrita e Estado se intensifica. A escrita passa a registrar bens, dívidas e trocas, acompanhando o crescimento do comércio. A organização social passa a depender de regras e de um sistema de registro que supere a memória individual.

A urbanização favorece a necessidade de uma língua comum. Na Europa, entre o fim da Idade Média e o Renascimento, cresce a demanda por uma língua nacional padronizada, com regras que viabilizam o ensino. O latim perde peso nesse processo.

Ao mesmo tempo, a gramática se amplia para línguas populares. Estados modernos promovem a gramaticização para criar padrões de uso e facilitar o ensino. As línguas locais passam a ter regras próprias, o que facilita a comunicação entre povos de um mesmo território.

A expansão colonial acelerou a gramaticização de várias línguas. Rodríguez destaca que a diferença entre a primeira gramática de francês e a de Nahuatl no México é de apenas alguns anos. As gramáticas serviram tanto ao aprendizado quanto à difusão do modelo de cidade europeu.

Nos territórios colonizados, a gramática também funcionou como ferramenta de ensino da língua do colonizador, impondo o modelo urbano europeizante. Missões jesuíticas no Brasil enfrentaram resistência entre povos seminômades ao tentar fixar a língua portuguesa.

Entretanto, a pesquisadora frisa que entender esses processos evita leituras eurocêntricas sobre suposta superioridade de línguas. O estudo mostra que a gramaticização segue necessidades históricas de urbanização e controle político.

As tecnologias da linguagem e a urbanização

A síntese aponta que escrita, gramática e dicionários nasceram para organizar sociedades complexas. O vínculo entre cidades e formas de registro mostra como linguagem e território se moldaram juntos ao longo do tempo.

Em suma, o desenvolvimento dessas tecnologias ocorreu em paralelo à urbanização e à formação de Estados. O objetivo foi facilitar a gestão, o comércio e a coesão social, segundo a pesquisa citada.

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